Sunday, March 22, 2009

Rotina e acontecimento

1. Na rotina acontece alguma coisa? Há acontecimentos ? Em certo sentido, visto que me levanto, me lavo, vou trabalhar, leio, escrevo, falo com as pessoas: fiz alguma coisa, alguma coisa aconteceu. Mas rotina significa acumulação e repetição do mesmo. Ora na repetição do mesmo a consciência de estar a fazer alguma coisa atenua-se, adormece. Atenua-se o ver, atenua-se o pensar, atenua-se o sentir. Atenua-se o viver.

2. Acontecimento, portanto, é a ruptura na rotina, a quebra do hábito. O corte com os hábitos, voluntariamente ou por força das circunstâncias, obriga a uma atenção particular ao que está a acontecer. O acontecimento, quando acontece, exige concentração, às vezes exige esforço.

3. Há acontecimentos dolorosos, penosos. E acontecimentos excitantes.

4. Queixar-se da rotina deixa entrever o tédio que acompanha o hábito. A rotina é um tempo que facilmente caracterizaríamos como desprovido de acontecimentos: não acontece nada porque nós não sentimos que aconteça alguma coisa.

5. O princípio e o fim da paixão amorosa interrompem a rotina. O mundo e a vida renovam-se, reaparecem. O nascimento e a morte dos outros também rompem com a rotina. E conseguir um emprego ou perdê-lo? O nosso interesse pelo mundo e pela vida reactiva-se nesses acontecimentos. Os acontecimentos renovam a nossa capacidade de reconstruir o destino e de acreditar no sentido da vida.

6. Às vezes, cansado de mim mesmo, em vez de ficar em casa a ler ou a ver televisão, decido sair. Na rua cruzo-me com pessoas, vejo-as no café, na livraria, no cinema. Elas têm rosto, corpo, uma maneira de ser e de estar, vestem-se de certa maneira. Assemelham-se, mal lhes prestamos atenção depois de as ter visto? Talvez, mas há surpresas. Um pormenor desperta o nosso interesse, deixa marcas, suscita reflexões ou admiração. São pequenas interrupções na rotina.

7. Provavelmente oiço música e leio, vou ao cinema ou viajo para escapar à rotina e me reencontrar com aquilo a que chamo a vida.

8. O excesso de acontecimentos pode levar à nostalgia da rotina.

9. Casar-se e divorciar-se podem ser uma maneira de escapar à rotina, de entrar num acontecimento.

10. A ilusão de ter acontecido alguma coisa revela-se às vezes mais tarde como pura ilusão. A rotina regressa, melancólica.

11. A necessidade de escapar à rotina pode levar a obsessões, a exageros, à invenção ou “inauguração” permanente de "acontecimentos". Mas se se criam assim outros hábitos, o problema ressurge. Não basta a vontade, nem a imaginação, nem o esforço - a ruptura aparente da rotina - para que haja acontecimento, porém.

12. Provavelmente o acontecimento verdadeiro é aquele que nos acontece de maneira imprevisível ou independentemente da nossa vontade e dos nossos projectos.

13. Mas só há acontecimento se eu viver o que acontece como um acontecimento. O acontecimento em si é nada, as coisas mais espantosas podem passar-nos completamente ao lado sem nos darmos conta disso.

14. O que é que esta maneira de entender as coisas e de falar delas tem a ver com a nossa percepção da existência como uma sucessão de narrativas com fim e princípio?

15. Conclusão (apressada): o que acontece só é acontecimento se eu o viver como acontecimento. Recriminação: tudo o que acontece é acontecimento, eu é que não vivo tudo o que acontece como acontecimento. A minha capacidade de viver um acontecimento como acontecimento é que faz do que aconteceu um acontecimento.

P. S. Há dias, ao fim da manhã, veio uma pessoa falar comigo. Ficou cinco minutos, até eu lhe dizer que se fosse embora. Eu conhecia o seu rosto, o seu sorriso, os seus olhos, a pele do seu pescoço, a linha límpida e suave da sua orelha direita. Ela estava de pé na minha frente e falava comigo, sorria. Tinha-se vestido para mim, a sua beleza resplandecia. Eu percebi porque é que ela tinha vindo, ela sabia porque é que tinha vindo. Eu tinha muito a dizer-lhe se quisesse, mas não podia, por isso não disse nada. Mais tarde pensei: nunca mais me vou esquecer. E no entanto, como convinha, um hipotético observador exterior teria dito: não aconteceu nada.

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