Monday, June 29, 2009

Escritores

(picture jc)

1. O pior inimigo dos escritores pode ser a ambição de ter estilo. Aliás é o pior inimigo de toda a gente e não apenas dos escritores. Ter estilo nem quando acontece por fatalidade é uma bênção inconsequente: no estilo trai-se a ignorância, trai-se o vício, traem-se as ingenuidades, trai-se a vaidade, trai-se a ambição, trai-se o projecto. Na obsessão, como no desejo em geral, tanto se escondem e revelam o vício como a virtude. E o que hoje é qualidade amanhã pode ser defeito. A acumulação de regularidades é sintomática, quer seja acompanhada de lucidez quer seja acompanhada de cegueira sobre si própria. Etc., não há solução.

2. Com a democratização do ensino e da educação em geral aumentou o número de pessoas que podem falar e escrever bem. O que não aumentou certamente foi o número de escritores que dizem alguma coisa susceptível de surpreender. Escrever bem é uma questão puramente técnica e a sociedade em geral beneficiou com os progressos da educação. Mas a literatura não escapará nunca a ser avaliada pela qualidade da experiência, pela qualidade da interrogação e da dúvida, pela qualidade do Ser. Ora as pessoas extraordinárias - ou capazes de se revelarem extraordinárias - são raras. A problematização da existência não interessa da mesma maneira nem no mesmo grau a todas as pessoas. Nunca escapamos às visões do mundo.

3. Num país onde o escritor de qualidade média ou banal é considerado um escritor importante a qualidade da existência e da cultura diminuem (ou já tinham diminuído). Excitar-se esteticamente ou mentalmente com a banalidade é uma repetição ou variação da história do rei nu que as pessoas querem ver ou pensam que vêem vestido. A ignorância ou o simples desconhecimento desempenham um papel importante na nossa capacidade de usufruir, de admirar, de nos excitarmos.

4. Se o escritor não gozasse de prestígio social - por razões que se entendem e outras que não se entendem - o que é que mudava neste enredo? E os grandes escritores também escreveram obras menos interessantes ou insignificantes, antes ou depois de se revelarem escritores importantes.

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