Tuesday, August 4, 2009

O vício pernicioso da curiosidade


Tenho tendência a pensar que todas as pessoas são interessantes, que algumas pessoas são particularmente interessantes, que algumas pessoas são mesmo excepcionalmente interessantes e que conhecê-las em profundidade – através do amor, se são mulheres – poderia mudar radicalmente a minha vida e torná-la apaixonante para além dos limites do imaginável. É uma qualidade ou defeito de que não sou culpado, nasci assim. Imagine-se agora o que é, para uma pessoa vítima desta visão tão optimista da existência, andar a pé ou de metro numa cidade como Londres, cidade onde se cruzam as raças e culturas mais diversas, as personalidades, os rostos, os corpos mais diferentes e intrigantes. Em vez de me distrair, a minha atenção é constantemente solicitada, a minha curiosidade e imaginação são constantemente provocadas por toda a espécie de estímulos que me chegam do exterior. Não tenho descanso senão quando, fatalmente, me sinto sem energias, cansado de olhar e de ver (e as pernas cansam-se-me mais do que o espírito, creio). Há pessoas que aspiram, no fim de uma vida de trabalho, a encontrar um lugar de repouso tranquilo. A mim apetece-me, quando chegar esse momento, deambular: fixar-me temporariamente em cidades onde a animação não cessa nunca, onde a inovação e a criatividade fazem parte do projecto de vida das pessoas; e quando me cansar de estar num sítio mudar-me para outro, para entender melhor, antes de morrer, tudo o que se está a passar. Levarei para onde for os romances do século XIX, algumas óperas, os livros de Wittgenstein e sobre Wittgenstein - e tentarei entender, inspirado de vez em quando, sem obsessão, por ele, a questão da linguagem e o que mal se deixa entender, se não abandonamos o que aprendemos, na nossa maneira de estar no mundo e de nos relacionarmos com os outros e com os nossos sentimentos.

P. S. Relacionada com esta questão, uma outra, a que para prejuízo meu sempre tive dificuldade em escapar: como concentrar toda a nossa capacidade de amor e sede de conhecimento numa única pessoa, escolhendo-a contra todas as outras? Será a isso que se deve o deambular afectivo? Vamos eliminando e passando à frente. Com pressa de mais, presumivelmente. Quem soubesse reter-nos... :-)

(J. E. Soice)

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