Monday, February 23, 2009

Miles Davis et John Coltrane - "So what?"

Miles Davis and John Coltrane play one of the best renditions of SO WHAT ever captured on film-Live in 1958. Edit : in fact, was in New York, april 2, 1959.

Saturday, February 21, 2009

Patrício da Silva

Patrício da Silva é um compositor português que vive actualmente os Estados Unidos. Pianista de formação, obteve o Ph.D. em Composição na Universidade da Califórnia em 2003. Venceu vários concursos internacionais de composição: o Barto International Prize, o Gould Family Foundation Composers Award, o Ojai Festival Music for Tomorrow, o Ottto Eckstein Family Fellowship, o Susan and Ford Schumann Fellowship.

Wednesday, February 18, 2009

Marc Andre Hamelin Plays Liszt's Hungarian Rhapsody No. 2

A maneira como este tipo toca Chopin, Schumann, Brahms (nos quartetos para piano, com o Leopold String Trio) dá nova dimensão e vida às peças que ele toca e que já pensávamos conhecer um pouco. Je n'en reviens pas... No Itunes não fica muito caro, pelo menos nos Estados Unidos (10 dólares o disco)

Thursday, February 12, 2009

1-Heifetz playing Brahms Sonata 1

Jascha Heifetz playing Brahms' sonata for violin and piano no. 1 Movement 1

Wednesday, February 11, 2009

Monday, February 9, 2009

Schubert - Schwanengesang, Werner Gura / Christoph Berner

Franz Schubert - Schwanengesang D. 957 "Ständchen" Werner Güra, Tenor Christoph Berner, Piano

Sunday, February 8, 2009

Perguntas e respostas

1


Eu gosto de pessoas que fazem perguntas e que quando as interrogamos não se furtam a responder-nos. Quem não fala connosco, em certo sentido é como se não existisse ou nos recusasse a nós a existência. É como se tivesse decidido desprezar a pessoa que nós somos. Não se pode agradar a toda a gente, ser amado por toda a gente, é certo. O amor, aquilo em que pensamos quando ouvimos a palavra amor, é um acontecimento raro. Mas viver na sombra, clandestinamente, é uma solução? Renunciar à paixão é uma solução? Ignorar os nossos semelhantes é uma prova de arrogância. É verdade que as palavras, os olhares, o mínimo gesto e até o silêncio podem dar origem a muitos mal-entendidos. Mas estamos neste planeta, não adianta querer ausentar-se dele e viver noutro para escapar ao nosso destino. Provavelmente é isso que acontece, muitas das pessoas que nos rodeiam vivem noutro planeta. Bem longe do nosso e por isso é impossível entrar em contacto com elas. Vemo-nos na rua, cruzamo-nos à entrada ou à saída do supermercado, suportamos com má cara o tédio da vida. Educamos os filhos, lemos, vamos ao ginásio fazer ginástica, escrevemos, ouvimos música. Vamos ao cinema, evidentemente, para ver as outras pessoas envolvidas em histórias que se assemelham às nossas ou em que gostaríamos de estar envolvidos mas não estamos. Onde é que estamos, então, onde é que vivemos a nossa vida?


2


Não, não é verdade que quem não fala é como se estivesse morto. Há sempre excepções às regras que nós inventamos para acreditar na regularidade científica do que se passa no mundo. Algumas das pessoas que não falam andam concentradas numa realidade interior profunda que nos é inacessível, mostram-nos um rosto grave, irradiam um ar de seriedade que nos seduz, que nos deixa intrigados, que às vezes nos comove. Não se pode deixar de ter em conta isso. As pessoas silenciosas, com quem é difícil ou impossível falar, provavelmente conhecem os segredos – as dores e as alegrias - da vida melhor do que nós. Concentradas na intensidade do ser, evitam perder tempo com aqueles que ainda vivem no erro. Não podemos afastá-las do caminho que é o delas, interrompê-las, recuperá-las para a banalidade da vida. A banalidade da vida? Uma mediocridade de que nos queixamos mas que nos vai satisfazendo, visto que não saímos dela, visto que não adoecemos nem morremos por causa dela.


3


Qual é a razão, perguntei-lhe eu. A razão de quê ou para quê, interrogou-me ela, olhando-me intrigada. A razão porque não me vês quando passas por mim na rua, por exemplo. A razão porque não me falas. Oh, respondeu ela, se isso aconteceu nem me dei conta. Tens a certeza? E olhou de novo para mim um pouco perplexa. Eu, com um sorriso, para reduzir a gravidade da minha mágoa: tenho, claro que tenho, e sofro com a tua indiferença. Se isso acontece, disse ela serenamente, sem me olhar, não é por razão nenhuma em particular. Devo andar distraída com a minha vida. Eu, cauteloso: mas quando andávamos no jardim-escola eras minha amiga, ríamo-nos muito juntos, divertíamo-nos, não? Talvez até existisse entre nós uma paixãozinha secreta. Oh, disse ela, é verdade que já me tinha esquecido desse tempo. Nós crescemos, a vida levou-nos em direcções diferentes, já não somos a mesma pessoa, nem tu nem eu. Eu concordei: de facto já não somos a mesma pessoa, nem ela nem eu. Ou seremos, afinal? Comecei a perorar sem qualquer originalidade nem inspiração particular acerca das mudanças na vida das pessoas, mudanças de carácter, de personalidade, de feitio, que fazem de nós pessoas diferentes em tempos diferentes. Nunca nos banhamos duas vezes nas mesmas águas do mesmo rio, tudo vai fluindo, só o movimento existe, concluí eu para lhe dar razão e não a deixar com remorsos. E acrescentei: até que um dia paramos de vez e ficamos eternamente com a cara com que morremos, deixou de haver mudança. Cara que entrará em decomposição rapidamente, mas enterram-nos, o que torna possível que continuem a recordar-se de nós como se ainda tivéssemos aquele rosto inconfundível. Estás a ver? Ela olhou para mim com curiosidade, como se não me reconhecesse ou estivesse de novo a dar pela minha existência. Acendi um cigarro, afastei a cadeira, cruzei as pernas, procurei os seus olhos. O que é que ela sentia, o que é que ela pensava naquele preciso momento? E por que razão é que eu estava tão inquieto, por que razão é que ela, que eu não via há tanto tempo, me intrigava e interessava neste momento? Tínhamo-nos encontrado por acaso na rua.


4


Dois dias mais tarde ela estava sentada ao meu lado no cinema, estávamos no intervalo. Eu peguei-lhe na mão: pensando bem, talvez ainda gostes de mim e eu talvez ainda goste de ti. Ela não tirou a mão, não olhou para mim, mas pareceu-me que se comoveu. Provavelmente há muito tempo que ninguém lhe pegava na mão. Provavelmente ela amava-me, nunca tinha deixado de me amar, e estava apenas à espera que eu tomasse a iniciativa. Encostei a minha cabeça à dela e dei-lhe um beijo na cara. Acariciei-lhe a nuca. Ouvi-a murmurar, mal se percebeu, era como se estivesse envergonhada ou a tivesse assaltado o pudor: tu és surpreendente, não te vejo há anos e retomas a relação comigo como se tivéssemos jantado os dois num restaurante ontem à noite, como é que tu podes ser assim? Recearia que a ouvissem ou tinha dificuldade em dizer o que sentia? As pessoas sentadas ao nosso lado, à frente ou atrás, estavam na vida delas, que lhe interessava a nossa conversa? Nada. Eu sentia-me feliz, porém. Tinha esperanças, talvez entre nós acontecesse, estivesse já a acontecer, o amor. Ela falava comigo, não era verdade? Reagia ao que eu dizia, não era verdade? Tinha vindo comigo ao cinema, não era verdade? Ela ouvia-me. Ela sabia que a minha mão estava fechada na sua e em vez de me afastar, de se furtar ao contacto, ela aceitava o que eu lhe dava. O diálogo agora já não era apenas um diálogo de palavras, o corpo dava-se como garantia de que as palavras não eram ditas em vão e tinham algum sentido.


5


Sou surpreendente porquê, perguntei-lhe eu quando o filme acabou e saímos do cinema. E com alguma firmeza, como se estivesse a protestar contra uma acusação injusta, acrescentei: não sou é tão distraído nem tão superficial como a maior parte das pessoas; o que me acontece, acontece-me mesmo, não te via há três anos, agora encontrei-te por acaso, não fiz esforço nenhum para me comportar contigo como me estou a comportar, as pessoas que eu amei fazem parte de mim, estão sempre em mim, mesmo quando se ausentaram ou morreram. E depois de respirar fundo, pondo-lhe a mão no ombro e puxando-a para mim: achas surpreendente que eu te tenha pegado na mão, que eu te tenha acariciado o cabelo, beijado na cara? Não há razão para espantos, tu já devias saber que eu gosto de ti, que hei-de sempre gostar de ti, seja qual for o sentido que se pode dar a essas palavras. A minha ternura por ti nunca se esgotou. Dava-me conta disso quando pensava em ti, isto é, a maneira como eu penso em ti está sempre envolvida numa grande ternura e em nostalgia. Ela ouviu-me sem se mostrar surpreendida, mas nos seus olhos castanhos pareceu-me ver o brilho de alguma alegria. O que eu dissera não lhe fora indiferente, eu tinha-a tocado, ela não desgostava de estar ali comigo. Mas necessitava de ser convencida, o que não me surpreendia, pois eu próprio estava a posteriori um pouco surpreendido com o que tinha dito, com o calor em que envolvera as minhas palavras. Tinha sido sincero, evidentemente, calorosamente sincero, mas não sabia, antes de falar, que tinha tanto para dizer. Pausadamente, pesando as palavras, como se quisesse proteger-me do erro, da cegueira da paixão ou da insensatez do desejo, talvez para evitar que descambássemos num palavreado absurdo, ela respondeu-me: dizes essas coisas, é agradável ouvir-te, mas o que é que fizeste para me rever nos anos que entretanto passaram? Nada, encontrámo-nos por acaso. Eu não te fiz falta, viver sem me ver não te perturbou. Podia perguntar-te por onde é que andaste. Mas tu tinhas-te simplesmente esquecido de mim, eu não te fazia falta. Ouvi-a falar e fiquei calado. Aproximei-me de novo da cara dela e procurei a sua boca. Parámos. Algumas pessoas dirigiam-se, como nós, para o carro no parque de estacionamento, ao longe a sombra das montanhas recortava-se contra o céu azulado. Ela não se afastou, mas a sua cara também não veio imediatamente ao encontro da minha. Ficou à espera. Quando os meus lábios tocaram os dela ela fechou os olhos e os seus lábios sorriram tenuemente. Beijámo-nos com alguma lentidão durante quase um minuto, os nossos lábios a acariciar os lábios do outro com uma inquietação controlada. Era preciso sentir o que estava a acontecer porque a intensidade do desejo é um milagre de instantes. Quem sabia se a coincidência de tanta ternura voltaria a repetir-se no futuro? Vês, vês, disse ela quando me afastei um pouco do seu rosto. Mas não acrescentou mais nada, ficou a olhar, calada e concentrada não sei em quê, para os meus olhos. Vejo o quê, pensei eu, ainda longe da realidade. Estávamos perto do meu carro, eu abri a porta e entrámos. Eu pus o carro a trabalhar, mas não arranquei, fiquei a olhar pelo pára-brisas para a escuridão da noite. Ela pôs a mão no meu ombro, tocou-me com dois dedos no pescoço. Depois aproximou-se e encostou a cabeça dela à minha.


6


Tudo se explica, aparentemente. Tudo é o quê? Não sei. É tudo, é nada. A própria vida é o quê? Sei lá. Um tormento perpétuo, uma aventura sem consequências, qualquer coisa assim. Digamos que poder falar é um privilégio que nem sempre nos é concedido. Quererem ouvirem-nos ajuda. Podemos acreditar nisso, apesar de a experiência também nos ensinar o contrário.


7


A gente pergunta porquê e começam a explicar-nos. Com relutância às vezes, é natural depois de tão longa ausência, mas não sempre. A explicação pode não nos satisfazer, mas como o mais importante é estabelecer o diálogo, podemos adiar o momento da satisfação absoluta para mais tarde. Convém fazermos um esforço para perceber o ponto de vista de quem nos está a falar e estar atento às emoções que se vão revelando nos olhos, nos lábios. Percebemos ou o ruído das palavras ilude-nos? As coisas, então, ficam, pelo menos temporariamente, mais simples - e aquilo a que chamamos a nossa existência fica mais interessante. Ou ficam mais complicadas, mas não é mau que isso aconteça, não nos queixemos, o debate é uma prova de insatisfação e um desejo inocente de verdade, é assim que se progride no caminho fecundo das sombras na direcção do nada final, momento de iluminação definitivo. Quem não tem com quem falar, quem o oiça, quem o compreenda é que se encontra numa situação desesperada, é como se já estivesse morto e ninguém se preocupasse com a sua ausência, com o seu cadáver a decompor-se.


8


Há verdades - ou o que nós decidimos tomar por verdades - que surgem bruscamente de uma discussão confusa e que aparentemente não ia a lado nenhum. Nós nem sabíamos de que é que estávamos a falar, isto é, não sabíamos ao ponto de poder explicar claramente o que dizíamos, o que queríamos, o que nos faltava, o que nos irritava. Nem todas as verdades, além disso, são duradoiras, a maior parte são transitórias. Aliás deve dizer-se que todas as verdades são transitórias, lugares de passagem, as verdades absolutas e definitivas não existem, a palavra verdade refere-se apenas a um conceito que nos ajuda a perceber o que se vai passando mesmo quando não entendemos nada do que se está a passar. A verdade, já se entendeu isso também, nunca é clara, é mesmo extraordinariamente difícil de isolar, de identificar, de explicar. Mas nós sentimo-la e é isso que conta. Sim, eu sei, tudo se usa, tudo se gasta. Mas é melhor aceitarmos o carácter transitório da sabedoria e não nos queixarmos. Morreremos cheios de perguntas por fazer? Mas se não perguntámos como queríamos que nos respondessem, mesmo não nos respondendo?


9


Depois do cinema fomos a um bar tomar uma cerveja. Estávamos sentados a fumar, eu perguntei-lhe; porquê, qual é a razão? Outra vez, disse ela como quem pergunta. Outra vez o quê, disse eu. Outra vez a razão, o porquê, disse ela. Porquê o quê? O que é que tu queres saber, o que é que te tortura tão insistentemente? Eu sei o que estou a dizer, sussurrei eu. Devolvi-lhe a acusação que ela me tinha feito e que eu não tinha esquecido: como é que pudeste viver tanto tempo longe de mim quando sabias que eu te amava como nunca amei ninguém? É um crime, foi um crime. Suspirei: como se eu já tivesse morrido, e hei-de morrer, tu sabes isso, mas não te incomodou a minha morte longe de ti, sem uma palavra tua. Pudeste passar sem mim. Não posso entender. Ela ficou calada. Depois pôs a mão na minha, pensativa, grave, sem me olhar, e acariciou-me. É importante saberes que eu conto contigo, disse eu. E queres estar comigo, perguntou ela. Depois acrescentou: para que é que eu sirvo se tu não morreste nem ficaste muito infeliz longe de mim? Não devo ser assim tão importante, não te devo fazer tanta falta como tu dizes. O que é que tu sabes do que me faz falta, disse eu irritado, as pessoas não andam na rua a gritar as razões do seu sofrimento. Acendi um cigarro, ela continuava silenciosa, pensativa. Estou a entrar na alma dela com pezinhos de lã, pensei eu, suavemente, ela está a deixar-me entrar, já não se opõe, já percebeu. Sorri, a minha vida recomeçava a fazer sentido. A nossa conversa agora, a partir de agora, era, seria, uma espécie de jogo complicado cheio de prazeres secretos. Para que é que ela me servia, me podia servir? Boa pergunta. Dei uma gargalhada breve e discreta. Aproximei a minha cara da dela e beijei-lhe o cabelo. Ela nem olhou para mim, começava a estar habituada, mas senti o seu ombro fazer pressão no meu. Mordi-lhe a orelha e disse-lhe baixinho ao ouvido: com os meus respeitosos, oh sim, os meus mais respeitosos cumprimentos, e se algum dia te casares com outro tipo em vez de te casares comigo, nunca te esqueças deste mal-entendido. Ela abanou a cabeça e puxou-me o nariz, sem nenhum respeito pela minha dignidade.

枯葉 Autumn Leaves - 1966 BILL EVANS

Thursday, February 5, 2009

Schubert - String Quartet

FRANZ SCHUBERT (1797-1828) String quartet No. 13 in A minor "Rosamunde" D804 1. Allegro ma non troppo Performed by the Takacs Quartet

Madame Bovary enfin s'abandonna

Il l'entraîna plus loin, autour d'un petit étang, où des lentilles d'eau faisaient une verdure sur les ondes. Des nénufars flétris se tenaient immobilles entre les joncs. Au bruit de leurs pas dans l'herbe, des grenouilles sautaient pour se cacher.
- J'ai tort, j'ai tort, disait-elle. Je suis folle de vous entendre.
- Pourquoi?... Emma! Emma!
- Oh! Rodolphe!... fit lentement la jeune femme en se penchant sur son épaule.
Le drap de sa robe s'accrochait au velours de l'habit, elle renversa son cou blanc, qui se gonflait d'un soupir; et, défaillante, tout en pleurs, avec un long gémissement et se cachant la figure, elle s'abandonna.

Flaubert, Madame Bovary, II, chap.IX