Sunday, May 31, 2009

Balzac: "la femme de trente ans..." (I)


(Whaterhouse)


"Balzac a découvert la femme de trente ans comme
Marx a découvert le prolétariat."
(Pierre Barbéris)


Between two and three o'clock in the morning Julie sat up, sombre and
moody, beside her sleeping husband, in the room dimly lighted by the
flickering lamp. Deep silence prevailed. Her agony of remorse had
lasted near an hour; how bitter her tears had been none perhaps can
realize save women who have known such an experience as hers. Only
such natures as Julie's can feel her loathing for a calculated caress,
the horror of a loveless kiss, of the heart's apostasy followed by
dolorous prostitution. She despised herself; she cursed marriage. She
could have longed for death; perhaps if it had not been for a cry from
her child, she would have sprung from the window and dashed herself
upon the pavement. M. d'Aiglemont slept on peacefully at her side; his
wife's hot dropping tears did not waken him.

But next morning Julie could be gay. She made a great effort to look
happy, to hide, not her melancholy, as heretofore, but an insuperable
loathing. From that day she no longer regarded herself as a blameless
wife. Had she not been false to herself? Why should she not play a
double part in the future, and display astounding depths of cunning in
deceiving her husband? In her there lay a hitherto undiscovered latent
depravity, lacking only opportunity, and her marriage was the cause.

Even now she had asked herself why she should struggle with love,
when, with her heart and her whole nature in revolt, she gave herself
to the husband whom she loved no longer. Perhaps, who knows? some
piece of fallacious reasoning, some bit of special pleading, lies at
the root of all sins, of all crimes. How shall society exist unless
every individual of which it is composed will make the necessary
sacrifices of inclination demanded by its laws? If you accept the
benefits of civilized society, do you not by implication engage to
observe the conditions, the conditions of its very existence? And yet,
starving wretches, compelled to respect the laws of property, are not
less to be pitied than women whose natural instincts and sensitiveness
are turned to so many avenues of pain.

Balzac, A Woman of Thirty (translated by Ellen Marriage)


Wednesday, May 27, 2009

Des lois plutôt magiques...

D’ailleurs, pour tous les événements qui dans la vie et ses situations contrastées se rapportent à l'amour, le mieux est de ne pas essayer de comprendre, puisque, dans ce qu'ils ont d'inexorable comme d'inespéré, ils semblent régis par des lois plutôt magiques que rationnelles. Quand un multimillionnaire, homme malgré cela charmant, reçoit son congé d'une femme pauvre et sans agrément avec qui il vit, appelle à lui, dans son désespoir, toutes les puissances de l'or et fait jouer toutes les influences de la terre, sans réussir à se faire reprendre, mieux vaut, devant l'invincible entêtement de sa maîtresse, supposer que le Destin veut l'accabler et le faire mourir d'une maladie de cœur plutôt que de chercher une explication logique. Ces obstacles contre lesquels les amants ont à lutter et que leur imagination surexcitée par la souffrance cherche en vain à deviner, résident parfois dans quelque singularité de caractère de la femme qu'ils ne peuvent ramener à eux, dans sa bêtise, dans l'influence qu'ont prise sur elle et les craintes que lui ont suggérées des êtres que l'amant ne connait pas, dans le genre de plaisirs qu'elle demande momentanément à la vie, plaisirs que son amant, ni la fortune de son amant ne peuvent lui offrir. En tous cas l'amant est mal placé pour connaître la nature des obstacles que la ruse de la femme lui cache et que son propre jugement faussé par l'amour l'empêche d'apprécier exactement. Ils ressemblent à ces tumeurs que le médecin finit par réduire mais sans en avoir connu l'origine. Comme elles ces obstacles restent mystérieux mais sont temporaires. Seulement ils durent généralement plus que l'amour. Et comme celui-ci n'est pas une passion désintéressée, l'amoureux qui n'aime plus ne cherche pas à savoir pourquoi la femme pauvre et légère qu'il aimait, s'est obstinément refusée pendant des années à ce qu'il continuât à l'entretenir.

Marcel Proust, À L’Ombre des Jeunes Filles en Fleurs

Wednesday, May 20, 2009

I would pay dearly...

"I would pay dearly to see how that dry crust sleeps with his wife."

Nikolai Stepanovich (in Chekhov's A Boring Story)

Sunday, May 17, 2009

Caius really was mortal

Ivan Ilych saw that he was dying, and he was in continual despair.
In the depth of his heart he knew he was dying, but not only was he unaccustomed to the thought, he simply did not and could not grasp it.
The syllogism he had learnt from Kiesewetter's Logic: "Caius is a man, men are mortal, therefore Caius is mortal," had always seemed to him correct as applied to Caius, but it certainly didn't apply to himself. That Caius - man in the abstract - was mortal, was perfectly correct, but he was not Caius, not an abstract man, but a creature quite separate from all others. He had been little Vanya, with a mamma and a papa, with Mitya and Volodya, with toys, a coachman and a nanny, afterwards with Katenka and with all the joys, griefs, and delights of childhood, boyhood, and youth. What did Caius know of the smell of that striped leather ball Vanya had been so fond of? Had Caius kissed his mother's hand like that, and did the silk of her dress rustle for Caius? Had he noted like that at school when the pastry was bad? Had Caius been in love like that? Could Caius preside at session as he did? "Caius really was mortal, and it was right for him to die; but as for me, little Vanya, Ivan Ilych, with all my thoughts and emotions, it's altogether a different matter. It cannot be that I ought to die. That would be too terrible."
Such was his feeling.

Tolstoy, The Death of Ivan Illich, in Tolstoy's Short Fiction, translated by Michael R. Katz, W. W. Norton & Company, New York and London, 2008

Monday, May 11, 2009

Os imortais

A Imortalidade. A História. E neste momento nem sequer há tempo para dedicar a todos os "imortais" mais recentes (ainda são muitos). O que eles lutaram, como eles falaram alto. O que muitos deles disseram, porém, está demasiado próximo de nós e entretanto as coisas evoluíram noutra direcção. Eles não pensaram que isso pudesse acontecer, a História para eles era lenta e eles contavam com essa lentidão para durar na memória colectiva. Mas foi o que aconteceu, a História prega partidas aos escritores e aos pensadores, pôs-se a evoluir rapidamente numa direcção imprevista e preocupa-se com coisas a que eles não prestaram atenção, vê o mundo de uma perspectiva que lhes escapou. O que eles escreveram, em vez de ter aberto caminhos, perdeu-se na vereda insignificante. A auto-estrada é noutro lado e ignora as veredas. Agora o que eles escreveram e pensaram é sobretudo um testemunho, um documento, nem sequer tão interessante como isso, dos erros, da falta de lucidez, da arrogância de um determinado período da História. Os mestres transformaram-se em vozes "da época", as verdades históricas em opiniões datadas sem utilidade para o futuro. Nas ruas os jovens, conscientes da sua beleza e da sua força, riem, gritam, cantam e dançam. O futuro imediato são eles. E o que vai acontecer ao que eles pensarem e disserem é imprevisível.

Friday, May 8, 2009

O Balanço da Situação

Há pessoas que acreditam na Humanidade. E na virtude dos nossos semelhantes, que só se assemelham ao que nós somos por fora. Eu fui uma dessas pessoas e provavelmente ainda não me curei definitivamente dessa doença. Ao longo da minha vida, que sem ser longa também não é curta, conheci toda a espécie de patifes e aldrabões, de oportunistas e de hipócritas. Os piores, porém, que são aqueles com quem desperdicei o meu tempo, não são aqueles que imediatamente se revelam ao nosso olhar distraído ou perspicaz como “más peças”. Os piores, evidentemente, são aqueles que escondem a mediocridade, a esperteza e o vício sob a aparência sorridente ou respeitável da amabilidade, da compostura, de uma fisionomia convidativa. Viver, afinal, visto que não podemos escapar a partilhar o mundo com outras pessoas, é uma aventura permanente, arriscada e repleta de surpresas. Por outras palavras: viver é ir aprendendo o que é a vida. Com mais clareza e determinação ainda diria que viver consiste, fatalmente, em ir desmascarando as embusteiras e os embusteiros que cruzam o nosso caminho e nos prometem a amizade, o amor, a solidariedade profissional, as alegrias de uma culta e genuína cumplicidade.

Não sei se as pessoas são o que são porque não podem ser outra coisa, se é a própria sociedade que gera e faz proliferar o vício, se são as oportunidades que fazem o ladrão. Não importa, provavelmente. Eu não acredito no poder redentor do catecismo, da educação e da literatura, nem na influência milagrosa do amor nas almas corrompidas. Elas são o que são e eu sou o que sou, inútil discorrer e tentar corrigir. A santidade dos santos, é evidente, obriga-nos a ter em conta outras perspectivas e a considerar que nem tudo é, neste desolado mundo, podridão. Ainda há almas bondosas e puras para quem fazer o bem, amar o próximo como a si mesmo, respeitar e perdoar os defeitos inerentes à raça significa alguma coisa. Mas eu também não gosto de santos. Nem acredito na sua virtude. Perdoar tudo, oferecer a outra metade da cara esbofeteada à mão atrevida e vingativa revela uma incompreensível e perniciosa tolerância. Se não distinguimos o bem do mal, o mundo transforma-se num purgatório caótico e indiferente onde nada vale nada, onde um sorriso e um esgar se equivalem, onde a paixão que leva à morte não merece mais consideração do que o casamento de interesse. Aceitar tudo o que acontece com um compungido ou beatífico sorriso cristão nos lábios introduz nas nossas existências o tédio a e a insignificância.


Que me resta, então? A solidão, como já se entendeu. É esse o meu estado actual, é essa a minha condição humana neste momento. Longe de todos, vou resistindo e sobrevivendo como posso. Não espero nada de ninguém porque ninguém dá realmente nada a ninguém. Não tenho nada a dar a ninguém porque não conheço ninguém capaz de receber e entender a dádiva, atribuindo-lhe o devido valor. E valor que não seja o devido, que valor é que é? Nenhum. Os mal-entendidos acabaram. Compreende-se que não seja fácil continuar a viver quando se atingiu este grau elevado de sabedoria e ascetismo Zen. Mas há compensações: o bicho escondido do Ser a que chamam “a alma”, tendo deixado de alimentar-se de esperanças, recusando-se a acreditar na bondade natural das pessoas e na grandeza do amor, desprezando o prestígio e a consideração com que a sociedade recompensa aqueles que, conformando-se aos seus ideais de sucesso, triunfaram, deixou de ser vítima de ilusões e pode concentrar-se exclusivamente, enfim, no entendimento de si mesmo e no usufruto da sua própria, grandiosa, miséria. A alienação, a mentira, acabaram, a verdade da vida ficou enfim, na solidão absoluta e sem esperanças, ao nosso alcance. Não acham que valeu a pena abrir os olhos? Não acham que pôr fim à hipocrisia que faz das nossas vidas um arremedo daquilo que poderiam ser justifica a solidão, por muito penosa e problemática que ela possa revelar-se por vezes? Eu acho que sim.

Às vezes, confesso, assalta-me ainda a tentação de voltar ao convívio das pessoas. Talvez a minha lucidez seja pessimismo excessivo, manifestação insensata de uma personalidade intolerante e despropositadamente individualista. Talvez a culpa dos meus desaires não caiba inteiramente a outras pessoas. Talvez o meu estado de espírito actual, derivado da sucessiva erosão de todos os devaneios e de todos os projectos, seja doentio e biologicamente explicável - e talvez se possa curar com alguma droga. Penso nisso às vezes, à noite sobretudo, sentado em casa, quando me vejo só e cheio de tédio diante da televisão. Ou de manhã, quando acordo e não me entusiasma a perspectiva de ter pela frente mais um dia de vida. Vida que por vezes me parece, sem que tal sentimento provoque em mim o regozijo da serenidade Zen, cheia de nada e de coisa nenhuma. Mas eu não cedo à tentação de dar importância a tais reflexões e pressentimentos. Voltar a perseguir o prazer, a acreditar na humanidade e bondade natural das pessoas seria esquecer tudo o que a vida duramente me ensinou e voltar à tolice antiga. Rever as minhas conclusões e deixar de ser aquele em que me transformei seria destruir irracionalmente, num momento de fraqueza, a sabedoria de uma visão do mundo que me deu muito trabalho construir e a que acabei por conferir a coerência de uma filosofia.

LISZT: Transcendental Etude No.9 (Berezovsky) (HD)

Tuesday, May 5, 2009

John Cage and Dr. Suzuki: no one wins

An Indian lady invited me to dinner and said Dr.
Suzuki would be there. He was.
Before dinner I mentioned Gertrude Stein.
Dr. Suzuki had never heard of her. I
described aspects of her work, which he said sounded
very interesting. Stimulated, I mentioned
James Joyce, whose name was also new to him.
At dinner he was unable to eat the curries
that were offered, so a few uncooked
vegetables and fruits were brought, which
he enjoyed. After dinner the talk turned
to metaphysical problems, and there were
many questions, for the hostess was a
follower of a certain Indian yogi and her
guests were more or less equally divided
between allegiance to Indian thought and to
Japanese thought. About eleven
o’clock we were out on the street walking
along, and an American lady said to Dr.
Suzuki, “How is it, Dr. Suzuki?
We spend the evening asking you
questions and nothing is decided.” Dr.
Suzuki smiled and said, “That’s why
I love philosophy: no one wins.”