Friday, August 28, 2009

PRB

I love them, their talent, their love stories, their jokes: PBR as Pre-Raphaelites Brotherhood is nice but Please Ring the Bell or Penis Rather Better is not bad either...

Saturday, August 22, 2009

Privilégios

Não nos vimos nem falámos durante muitos anos. Depois ela encontrou-me no Facebook. Não se tinha esquecido de mim, embora tivesse razões para isso. E eu também me lembrava dela, tinha razões para isso. Falámos de novo. Vem visitar-me, disse eu. Vem tu visitar-me primeiro, disse ela. Talvez, disse eu, mas o teu pai era capaz de me bater. Que parvo, disse ela, e por que razão é que o meu pai te ia bater? Se soubesse que eu dormia contigo, era capaz de me tratar mal, disse eu. E quem é que te disse que vais dormir comigo, perguntou ela. Ri-me, a pensar nos pais que esperam que as filhas só durmam com um homem quando estão casadas. Ela calou-se, não dizia mais nada. Se não falas vou-me deitar, disse eu, aqui é tarde. E saí do chat. Ela voltou: ficaste zangado comigo por causa do que eu disse? Eu: nunca me zango contigo, só me calo quando tu não falas. Mais tarde fui dormir. Que ela receasse que eu estivesse zangado com ela pareceu-me um privilégio.

Friday, August 21, 2009

Tanta gente na nossa história

Abri La Logique du Récit para confirmar as minhas suspeitas: as relações humanas nunca são puramente bilaterais, nós é que vivemos nessa ilusão. Percorra-se o índice do livro de Claude Bremont e está lá tudo explicado: nas nossas acções e relações interferem uma série de pessoas. Há os "agents volontaires" e os "agents involontaires" da acção (nós próprios entramos aí, se estamos a agir) e há os "influenceurs" (os outros, que se dividem em "informateurs", "dissimulateurs". "séducteurs", "intimidateurs", "obligateurs", "conseilleurs", "déconseilleurs", "donneurs de permission", "améliorateurs, "dégradateurs", etc.). As pessoas que se metem entre nós e os outros, entre nós e os nossos objectivos, interferindo activamente na nossa existência, vêm evidentemente carregadas de manias, de fantasmas, de interesses, tudo bem seu, tão seu como o corpo com que se passeiam na cidade. Não admira que para um cérebro lúcido as relações entre as pessoas se assemelhem espantosamente às relações entre os países: é tudo política e a política é a arte de querer levar a água ao moinho próprio.

Wednesday, August 5, 2009

O que valem as palavras?

As únicas situações em que as palavras são usadas responsavelmente são as previstas pela lei (que ela própria está sujeita às variações da interpretação feita pelas pessoas que detêm poder para isso). Tudo o resto pode ser des-dito mais tarde sem pejuízos legais. O valor das palavras é sempre circunstancial, nunca é absoluto? De que adianta dizer que nos amam? O "sim" do casamento estabelece um contrato perante a lei, não é uma promessa nem garantia de qualquer forma de amor ou duração do amor. Só as e os incautos imaginam o contrário.

Tuesday, August 4, 2009

O vício pernicioso da curiosidade


Tenho tendência a pensar que todas as pessoas são interessantes, que algumas pessoas são particularmente interessantes, que algumas pessoas são mesmo excepcionalmente interessantes e que conhecê-las em profundidade – através do amor, se são mulheres – poderia mudar radicalmente a minha vida e torná-la apaixonante para além dos limites do imaginável. É uma qualidade ou defeito de que não sou culpado, nasci assim. Imagine-se agora o que é, para uma pessoa vítima desta visão tão optimista da existência, andar a pé ou de metro numa cidade como Londres, cidade onde se cruzam as raças e culturas mais diversas, as personalidades, os rostos, os corpos mais diferentes e intrigantes. Em vez de me distrair, a minha atenção é constantemente solicitada, a minha curiosidade e imaginação são constantemente provocadas por toda a espécie de estímulos que me chegam do exterior. Não tenho descanso senão quando, fatalmente, me sinto sem energias, cansado de olhar e de ver (e as pernas cansam-se-me mais do que o espírito, creio). Há pessoas que aspiram, no fim de uma vida de trabalho, a encontrar um lugar de repouso tranquilo. A mim apetece-me, quando chegar esse momento, deambular: fixar-me temporariamente em cidades onde a animação não cessa nunca, onde a inovação e a criatividade fazem parte do projecto de vida das pessoas; e quando me cansar de estar num sítio mudar-me para outro, para entender melhor, antes de morrer, tudo o que se está a passar. Levarei para onde for os romances do século XIX, algumas óperas, os livros de Wittgenstein e sobre Wittgenstein - e tentarei entender, inspirado de vez em quando, sem obsessão, por ele, a questão da linguagem e o que mal se deixa entender, se não abandonamos o que aprendemos, na nossa maneira de estar no mundo e de nos relacionarmos com os outros e com os nossos sentimentos.

P. S. Relacionada com esta questão, uma outra, a que para prejuízo meu sempre tive dificuldade em escapar: como concentrar toda a nossa capacidade de amor e sede de conhecimento numa única pessoa, escolhendo-a contra todas as outras? Será a isso que se deve o deambular afectivo? Vamos eliminando e passando à frente. Com pressa de mais, presumivelmente. Quem soubesse reter-nos... :-)

(J. E. Soice)