Saturday, February 6, 2010

A Habitação do Ser

O Ser habita o corpo.
Quando o corpo morre
o Ser fica sem habitação.
Ninguém sabe aonde
ele foi, em que lugar
misterioso se esconde.

Algumas pessoas acreditam
que o Paraíso e o Inferno
são a morada do Ser que
ficou sem casa quando o
corpo morreu. Eu,
pessoalmente, não tenho
opinião sobre o assunto.

A ideia de sobreviver ao corpo
que serve de habitação ao Ser
agrada-me. Mas não basta que
as coisas me agradem para que
se tornem possíveis. Por isso
não extraio conclusões e tento
concentrar-me em mim mesmo
enquanto o Ser não me abandona.

A maneira como eu me
exprimo é absurda: se eu
sou o Ser, como posso afirmar
que o Ser me abandona? Devia
perguntar-me: quando deixar de
ter como lugar de habitação o
corpo, onde se refugia aquilo
que sou eu, o Ser? Escrevo
estas coisas como se elas
fossem um poema. A poesia
é uma maneira afectada
de se elevar acima
da materialidade imediata
e sem sentido
do mundo. Há pessoas
que para dar ao amor
uma dimensão poética
inventam cenários tolos:
estão à beira de um mar
gelado com a mulher que
amam e aspiram à morte,
não se sabe bem porquê.
Para tornar as coisas mais
interessantes evocam os
corsários. Vivem em Lisboa,
andam pelos cafés e pelos
cinemas, estamos no século
XXI, mas eles sonham com
corsários. Que mistura
inacreditável. É isso a
poesia, voltar à infância
mais infantil é a poesia?
O Ser deles é uma borboleta
perdida de si mesma, uma
borboleta que bate as asas
no ar quente da noite sem
saber por que bate as asas.
Por não saberem aonde ir
nem o que é a vida lançam
poeira nos olhos dos leitores
indefesos e perplexos. É isso a
literatura? Eles aproximam-se
da vida enganando-se no
caminho, por isso, em vez
de se aproximarem da vida,
afastam-se dela. A vida
aterroriza-os? A falta de
sentido da vida aterroriza-os?
É o que parece, à primeira vista,
mas eles devem ter outras
explicações, todos nós
temos sempre muitas
explicações para tudo o que
acontece e o que não acontece.

Eu não sou melhor do que eles,
entretenho-me a desfiar a meada
do sentido influenciado pelos
meus estados de espírito que
em si mesmos não têm qualquer
importância. E as paixões
deformam a minha compreensão
do mundo e da minha presença
nele, há dias em que penso uma
coisa e no dia seguinte vejo o
que acontece a partir de uma
perspectiva bem diferente
- sem no entanto ser capaz
de admitir que me enganei: tudo
o que acontece e o que eu penso
do que acontece, concluo então, tem
a sua justificação em si mesmo e
nos mistérios do percurso do sangue
pelo meu corpo. Por isso a minha
capacidade de perdão é imensa,
embora uma parte de mim nunca
perdoe verdadeiramente a
ninguém nem a mim próprio
o descalabro, o erro, a mentira,
a ilusão e a vaidade com que
nos passeamos na rua e nos
sentamos nos cafés a perorar
sobre o que tem importância
e a desvalorizar o que não nos
interessa e aqueles que vêem
as coisas de uma maneira
muito distinta da nossa. O
Ser suporta tudo e quando
chegar a hora de se esvair em
nada, tudo revela-se enfim,
aos olhos de quem quiser
observar com alguma frieza
o que se passou, como sendo
pouca coisa. Ficaram as palavras,
a memória delas e dos rostos,
mas o que vale a memória das
palavras e o que valem os rostos
que se perderam e confundiram
nas nuvens da memória? Nada.

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