Sunday, February 21, 2010

Os sulcos

― Não vale a pena, Zé Fernandes. Há uma imensa pobreza e secura de invenção! Sempre os mesmos florões Luís XV, sempre as mesmas pelúcias... Não vale a pena!

Eu arregalava os olhos para este transformado Jacinto. E sobretudo me impressionava o seu horror pela Multidão ― por certos efeitos da Multidão, só para ele sensíveis, e a que chamava os «sulcos».

― Tu não os sentes, Zé Fernandes. Vens das serras... Pois constituem o rijo inconveniente das Cidades, estes sulcos! É um perfume muito agudo e petulante que uma mulher larga ao passar, e se installa no olfacto, e estraga para todo o dia o ar respirável. É um dito que se surpreende num grupo, que revela um mundo de velhacaria, ou de pedantismo, ou de estupidez, e que nos fica colado à alma, como um salpico, lembrando a imensidade da lama a atravessar. Ou então, meu filho, é uma figura intolerável pela pretensão, ou pelo mau-gosto, ou pela impertinência, ou pela relice, ou pela dureza, e de que se não pode sacudir mais a visão repulsiva... Um pavor, estes sulcos, Zé Fernandes! De resto, que diabo, são as pequeninas misérias de uma Civilização deliciosa!

Tudo isto era especioso, talvez pueril ― mas para mim revelava, naquele chamejante devoto da Cidade, o arrefecimento da devoção. Nessa mesma tarde, se bem recordo, sob uma luz macia e fina, penetrámos nos centros de Paris, nas ruas longas, nas milhas de casario, todo de caliça parda, eriçado de chaminés de lata negra, com as janelas sempre fechadas, as cortininhas sempre corridas, abafando, escondendo a vida. Só tijolo, só ferro, só argamassa, só estuque: linhas hirtas, angulos ásperos: tudo seco, tudo rígido. E dos chãos aos telhados, por toda a fachada, tapando as varandas, comendo os muros, Tabuletas, Tabuletas...

―Oh, este Paris, Jacinto, este teu Paris! Que enorme, que grosseiro bazar!

E, mais para sondar o meu Príncipe do que por persuasão, insisti na fealdade e tristeza destes prédios, duros armazéns, cujos andares são prateleiras onde se apilha humanidade! E uma humanidade impiedosamente catalogada e arrumada! A mais vistosa e de luxo nas prateleiras baixas, bem envernizadas. A reles e de trabalho nos altos, nos desvãos, sobre pranchas de pinho nu, entre o pó e a traça...

Jacinto murmurou, com a face arrepiada:

―É feio, é muito feio!

E acudiu logo, sacudindo no ar a luva de anta:

―Mas que maravilhoso organismo, Zé Fernandes! Que solidez! Que produção!

Eça de Queirós, A Cidade e as Serras

Saturday, February 13, 2010

Leonard Warren O du mein holder Abendstern Tannhäuser Live

This video is in honor of the 49th anniversary of Leonard Warren's final performance March 4th 1960, 49 yrs ago today. During this performance he passed away on the stage of the metropolitan opera...this is a live recording.

Saturday, February 6, 2010

A Habitação do Ser

O Ser habita o corpo.
Quando o corpo morre
o Ser fica sem habitação.
Ninguém sabe aonde
ele foi, em que lugar
misterioso se esconde.

Algumas pessoas acreditam
que o Paraíso e o Inferno
são a morada do Ser que
ficou sem casa quando o
corpo morreu. Eu,
pessoalmente, não tenho
opinião sobre o assunto.

A ideia de sobreviver ao corpo
que serve de habitação ao Ser
agrada-me. Mas não basta que
as coisas me agradem para que
se tornem possíveis. Por isso
não extraio conclusões e tento
concentrar-me em mim mesmo
enquanto o Ser não me abandona.

A maneira como eu me
exprimo é absurda: se eu
sou o Ser, como posso afirmar
que o Ser me abandona? Devia
perguntar-me: quando deixar de
ter como lugar de habitação o
corpo, onde se refugia aquilo
que sou eu, o Ser? Escrevo
estas coisas como se elas
fossem um poema. A poesia
é uma maneira afectada
de se elevar acima
da materialidade imediata
e sem sentido
do mundo. Há pessoas
que para dar ao amor
uma dimensão poética
inventam cenários tolos:
estão à beira de um mar
gelado com a mulher que
amam e aspiram à morte,
não se sabe bem porquê.
Para tornar as coisas mais
interessantes evocam os
corsários. Vivem em Lisboa,
andam pelos cafés e pelos
cinemas, estamos no século
XXI, mas eles sonham com
corsários. Que mistura
inacreditável. É isso a
poesia, voltar à infância
mais infantil é a poesia?
O Ser deles é uma borboleta
perdida de si mesma, uma
borboleta que bate as asas
no ar quente da noite sem
saber por que bate as asas.
Por não saberem aonde ir
nem o que é a vida lançam
poeira nos olhos dos leitores
indefesos e perplexos. É isso a
literatura? Eles aproximam-se
da vida enganando-se no
caminho, por isso, em vez
de se aproximarem da vida,
afastam-se dela. A vida
aterroriza-os? A falta de
sentido da vida aterroriza-os?
É o que parece, à primeira vista,
mas eles devem ter outras
explicações, todos nós
temos sempre muitas
explicações para tudo o que
acontece e o que não acontece.

Eu não sou melhor do que eles,
entretenho-me a desfiar a meada
do sentido influenciado pelos
meus estados de espírito que
em si mesmos não têm qualquer
importância. E as paixões
deformam a minha compreensão
do mundo e da minha presença
nele, há dias em que penso uma
coisa e no dia seguinte vejo o
que acontece a partir de uma
perspectiva bem diferente
- sem no entanto ser capaz
de admitir que me enganei: tudo
o que acontece e o que eu penso
do que acontece, concluo então, tem
a sua justificação em si mesmo e
nos mistérios do percurso do sangue
pelo meu corpo. Por isso a minha
capacidade de perdão é imensa,
embora uma parte de mim nunca
perdoe verdadeiramente a
ninguém nem a mim próprio
o descalabro, o erro, a mentira,
a ilusão e a vaidade com que
nos passeamos na rua e nos
sentamos nos cafés a perorar
sobre o que tem importância
e a desvalorizar o que não nos
interessa e aqueles que vêem
as coisas de uma maneira
muito distinta da nossa. O
Ser suporta tudo e quando
chegar a hora de se esvair em
nada, tudo revela-se enfim,
aos olhos de quem quiser
observar com alguma frieza
o que se passou, como sendo
pouca coisa. Ficaram as palavras,
a memória delas e dos rostos,
mas o que vale a memória das
palavras e o que valem os rostos
que se perderam e confundiram
nas nuvens da memória? Nada.