Wednesday, March 23, 2011

Especulação sobre a passagem do tempo

Quem, tendo conhecido o amor e o ódio
na cidade, teve tempo para pensar na solidão
da floresta? Nela as opulentas árvores parecem
adormecidas, desde sempre indiferentes ao
vento e à chuva que atormenta as montanhas,
ao sol que entontece, febril, as desertas praias.
Mas as folhas e os frutos anunciam as estações
e nunca se enganam. À arvore que acaba de surgir
da dilecta terra as outras árvores dizem apenas:
ocupa o teu lugar, aprende a amar o teu destino.
Há sempre lugar para a nova árvore porque
as árvores também envelhecem e morrem. Nós
não damos por isso, o nosso tempo e o delas
são habitados por paixões diferentes. As
árvores vivem em silêncio, ignorando a nossa
agitação. A nossa indiferença parece-lhes natural,
elas não necessitam do nosso olhar para se aproximar
do distante céu. Não se queixam. Não as perturba o
nosso destino incerto. A árvore abatida não inspira
a compaixão das outras árvores, nem as palavras
de consolação, nem as lágrimas. Discretamente, a
árvore aceita o seu destino. Nós, os homens,
acompanhamos com o excesso dos sentimentos
os mínimos episódios da nossa existência. Temos
fé e esperança, deixamos de acreditar e de esperar,
inquieta-nos o desejo e imaginamos que não nos
esquecem aquelas que um dia amámos. É possível,
porque não? Mas o tempo, o carro funerário do
tempo desliza sem percalços nas veredas do campo,
entre as searas, pelas colinas, à beira dos rios. Para
não nos assustarmos nós fechamos os olhos. A nossa
morte, porém, acontece aos outros, a nós escapa-nos
a gravidade insuportável do acontecimento. Vai-se
renovando a floresta diante do olhar daquele que parou
o automóvel à beira da estrada para tirar uma fotografia.
Ele vem todos os anos de visita à paisagem da infância.
E comove-se, silenciosamente, quando contempla a
imensidão dos campos, a sua eterna solidão. É no tempo,
indiferente à paixão e à dor, que tudo acontece. É nele
que abrimos os olhos e os fechamos, reentrando nas trevas.
A existência: breve passagem, sonho excessivamente vago.
A duração da viagem é ilusória. A velocidade a que tudo
acontece depressa nos deixa na estação onde espera
por nós a morte. Recordo o amor, o encontro, os
sorrisos de felicidade, a ligeireza das horas que sem
tormento nos aproximavam do nosso destino. Quem
preferia não ter nascido? Acredita no amor, abre os
braços e o peito àquela que quer apertar-te contra o seu
coração. Concentra-te na intensidade dos sentimentos.
Agradece o que te deram e o que te foi recusado.

Lembro-me de ti a caminhar, apressada, na rua que
levava à universidade. A tua camisa vermelha abrasava
a tarde de Verão, ias despedir-te do amor antigo. Eu
estava à tua espera, impaciente, e não podia perceber.
Sorris, mais tarde, nas fotografias, com o filho ao colo
ou encavalitado nos teus ombros. Estás de pé, meio
amargurada e indecisa, ao lado do automóvel novo
noutra fotografia. No comboio, sentados na frente
um do outro, os nossos olhares queimavam de desejo
a escura noite. E ao nosso lado as pessoas, tocadas pela
intensidade do nosso amor, sorriam. Não, não somos
tão cruéis como nos descrevem. O ódio e a inveja, a
mentira e a indiferença não são os sentimentos que
dominam o nosso destino. A contemplação do amor
torna-nos felizes, faz descer sobre nós o bálsamo da
alegria. Mas quem, ainda, se lembra de nós? O destino
dos nossos filhos assemelha-se ao nosso. O relógio do
tempo tritura todos os nossos sonhos e as recordações.
Se Deus existisse tudo seria desculpável, a dor imunda e
inútil seria perdoada sem revolta. Mas Deus ausentou-se.
Deus? Nunca pude imaginar o seu rosto. Tem coração?
No seu olhar omnipotente brilha a ternura dos pais
terrestres? Em que pensavam, que feições lhe deram
aqueles que inventaram a sua existência? Os loucos
que se passeiam, sonâmbulos, nos corredores da casa
deserta, que vão de quarto em quarto a murmurar
palavras incompreensíveis, provavelmente falam
com ele. Eles deliram. Talvez no delírio adquiram
algum sentido a vida e a morte. Ou seja esquecida
a miserável condição. Talvez. A nós escapa-nos o
mistério. Podíamos segui-los, podíamos acompanhá-los
na sua deambulação insensata. A tentação assalta-nos.
Hesitamos. Mas afastamo-nos, incomodados. Não
renunciamos à lucidez. Quem, se pudesse, teria
preferido não viver? Quem, se pudesse?

Do livro de poemas A Ignorância e o Conhecimento
a publicar em breve pela OVNI (os poemas mais 
antigos datam dos anos 90)

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