Sunday, June 26, 2011

J. E. Soice


Contrariamente ao que se possa pensar eu não sei tudo sobre Soice. Longe disso. É possível saber tudo sobre alguém? É possível saber alguma coisa sobre alguém? Juntamos algumas informações, confiamos que as adquirimos honestamente, acreditamos que sabemos alguma coisa. Não sabemos tudo, podemos duvidar do que sabemos, mas, enfim, não há outra maneira de conhecer ou de saber. Se caímos na dúvida radical a vida não tem sentido, nada tem sentido, é o vazio e o caos. E com o vazio e o caos vem a incapacidade de agir, de pensar. Ora nós somos por natureza seres que pensam e que agem, viver é agir e pensar.

Eu admiro as pessoas que são capazes de escrever tratados filosóficos, de dar vida a obras cientificas que se impõem ao respeito de gente competente para avaliar a sua qualidade: a lógica perfeita dos argumentos, a verosimilhança do todo. Admiro o método e as suas vantagens, admiro o rigor e a convicção. Infelizmente a educação que recebi ou a minha natureza não me dotaram das qualidades necessárias à produção de uma obra científica. Faltam-me a paciência, o talento e o método. Facilmente me distraio, a minha atenção tem tendência a dispersar-se, talvez seja porque tudo me interessa, porque nada do que é humano me é alheio, indiferente ou estranho. Os detalhes captam a minha atenção e esqueço-me do conjunto, aonde é que eu ia?,  é como se a coerência aparente dos grandes conjuntos me inspirasse desconfiança, como se duvidasse dos sistemas organizados de pensamento tanto como das histórias bem contadas e que parecem ter todo o sentido. E, vítima dos meus defeitos, vou recolhendo aqui e ali - hoje, ontem, de manhã ou à tarde, às vezes à  noite enquanto a maior parte das pessoas dorme - ao sabor do que vai acontecendo, do que vejo ou oiço, fragmentos de informação, uma mínima sabedoria, parco conhecimento. Reuni-los e encontrar-lhes o sentido é o trabalho que me fica para fazer a seguir. Trabalho que me ocupa muitas horas e me mantém entretido no fio dos meus pensamentos. Para essa vocação não é necessário projecto ou método seguro de antemão estabelecido. Às vezes falam-me e eu não oiço. Do que desfila ou se imobiliza diante dos meus olhos vejo um pouco e muito me escapa. Absorvido, sem o ter desejado ou planeado, na tarefa modesta e secreta da reconstituição ou reconstrução da verdade, de uma verdade útil e coerente, aquilo a que outras pessoas chamam a vida parece que me passa ao lado. Não tenho obrigação nenhuma, ninguém me encomendou nenhum sermão nem investigação, sou livre e irresponsável; mas sou um escravo. A minha sede de verdade - outros diriam obsessão com a verdade - impede-me de deformar deliberadamente o que vejo, o que ouvi, o pouco que sei. E a distracção está-me interdita. A máquina do cérebro, sem que eu tenha nisso qualquer poder de deliberação, não conhece descanso. Assim me vou salvando aos meus próprios olhos da mediocridade e do sentimento de culpa que a acompanharia.

Voltemos a José Eduardo, pois é disso que se trata aqui. Que sei dele? Pouco, já disse. Não sei onde ele está ou onde vive, nem sequer sei se ainda é vivo. Quando foi a última vez que o vi?  Boa pergunta, mas eu nunca disse que o conheci pessoalmente. Sei pouco, mas conto dizer o pouco que sei e a partir daí, juntando os fragmentos, quem me ler poderá começar a ter uma ideia mais precisa de quem é ou foi este curioso e inesperado, e no entanto em meu entender interessante porque mais do que normalíssimo cidadão que responderia, se o chamássemos, pelo nome de Soice. 


José Eduardo Soice disse-me uma vez que tinha tido grande um grande amigo italo-americano: Arturo Bandini. Eu respondi: "mas esse tipo não é um personagem dos romances de John Fante?" Ele respondeu: "E depois, o que é que nós somos além de sermos personagens de romances, dos nossos romances e dos de outras pessoas? Nada."

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