Saturday, June 25, 2011

José Eduardo Soice

Ninguém fala de José Eduardo Soice. E no entanto para mim é um dos escritores contemporâneos portugueses mais interessantes. A poesia dele não é poesia, na ficção dele não há subentendidos, é tudo literal. Nada a ver com as Violantes e os Filintos que andam para aí a embelezar banalidades no papel celofane da profundidade literária.

Uma vez perguntaram-lhe por que razão é que ele escrevia e ele respondeu: porque sei e porque me apetece, mas às vezes não me apetece e não escrevo. O meu amigo Fernando Venâncio citou esta resposta numa das suas crónicas no Expresso há anos já não sei a que propósito.

O desprezo de Soice pela gente literária - gente, dizia ele, que aos olhos da burguesia sequiosa de se ver retratada na sua insignificância e nas suas pseudo-confidências sentimentais e pseudo-conflitos de identidade era o rosto institucional "da literatura" - levou-o a brincadeiras que parecem infantis. Pôs-se a assinar às vezes Soice, outras Zoice, outras Soique ou Zoique, uma vez assinou Zique, outra Quesoi e outra Quezoi. Quando o meu amigo Fernando Venâncio, intrigado e a rir-se, lhe fez ver que essas brincadeiras, depois dos surrealistas, do Fradique e de outras coca-colas ou Warhols já não impressionavam ninguém, ele respondeu: tanto se me dá, nomes não são caixas de bombons nem entidades para além de si mesmas. O Fernando disse-me que ainda hoje não percebeu bem o que ele queira dizer com aquilo, embora pressinta. Eu acho que entendo: nomes não são caixas, nós é que os enchemos de stuff.


Há dois tipos de escritores, disse uma vez Soice a uma jornalista do Público que o entrevistou por ocasião do lançamento de um dos seus livros: os conhecidos e os desconhecidos. E acrescentou: eu não pertenço a nenhum desses grupos porque eu não sou escritor, a senhora está a confundir-me com outra pessoa. 

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