Wednesday, March 23, 2011

Especulação sobre a passagem do tempo

Quem, tendo conhecido o amor e o ódio
na cidade, teve tempo para pensar na solidão
da floresta? Nela as opulentas árvores parecem
adormecidas, desde sempre indiferentes ao
vento e à chuva que atormenta as montanhas,
ao sol que entontece, febril, as desertas praias.
Mas as folhas e os frutos anunciam as estações
e nunca se enganam. À arvore que acaba de surgir
da dilecta terra as outras árvores dizem apenas:
ocupa o teu lugar, aprende a amar o teu destino.
Há sempre lugar para a nova árvore porque
as árvores também envelhecem e morrem. Nós
não damos por isso, o nosso tempo e o delas
são habitados por paixões diferentes. As
árvores vivem em silêncio, ignorando a nossa
agitação. A nossa indiferença parece-lhes natural,
elas não necessitam do nosso olhar para se aproximar
do distante céu. Não se queixam. Não as perturba o
nosso destino incerto. A árvore abatida não inspira
a compaixão das outras árvores, nem as palavras
de consolação, nem as lágrimas. Discretamente, a
árvore aceita o seu destino. Nós, os homens,
acompanhamos com o excesso dos sentimentos
os mínimos episódios da nossa existência. Temos
fé e esperança, deixamos de acreditar e de esperar,
inquieta-nos o desejo e imaginamos que não nos
esquecem aquelas que um dia amámos. É possível,
porque não? Mas o tempo, o carro funerário do
tempo desliza sem percalços nas veredas do campo,
entre as searas, pelas colinas, à beira dos rios. Para
não nos assustarmos nós fechamos os olhos. A nossa
morte, porém, acontece aos outros, a nós escapa-nos
a gravidade insuportável do acontecimento. Vai-se
renovando a floresta diante do olhar daquele que parou
o automóvel à beira da estrada para tirar uma fotografia.
Ele vem todos os anos de visita à paisagem da infância.
E comove-se, silenciosamente, quando contempla a
imensidão dos campos, a sua eterna solidão. É no tempo,
indiferente à paixão e à dor, que tudo acontece. É nele
que abrimos os olhos e os fechamos, reentrando nas trevas.
A existência: breve passagem, sonho excessivamente vago.
A duração da viagem é ilusória. A velocidade a que tudo
acontece depressa nos deixa na estação onde espera
por nós a morte. Recordo o amor, o encontro, os
sorrisos de felicidade, a ligeireza das horas que sem
tormento nos aproximavam do nosso destino. Quem
preferia não ter nascido? Acredita no amor, abre os
braços e o peito àquela que quer apertar-te contra o seu
coração. Concentra-te na intensidade dos sentimentos.
Agradece o que te deram e o que te foi recusado.

Lembro-me de ti a caminhar, apressada, na rua que
levava à universidade. A tua camisa vermelha abrasava
a tarde de Verão, ias despedir-te do amor antigo. Eu
estava à tua espera, impaciente, e não podia perceber.
Sorris, mais tarde, nas fotografias, com o filho ao colo
ou encavalitado nos teus ombros. Estás de pé, meio
amargurada e indecisa, ao lado do automóvel novo
noutra fotografia. No comboio, sentados na frente
um do outro, os nossos olhares queimavam de desejo
a escura noite. E ao nosso lado as pessoas, tocadas pela
intensidade do nosso amor, sorriam. Não, não somos
tão cruéis como nos descrevem. O ódio e a inveja, a
mentira e a indiferença não são os sentimentos que
dominam o nosso destino. A contemplação do amor
torna-nos felizes, faz descer sobre nós o bálsamo da
alegria. Mas quem, ainda, se lembra de nós? O destino
dos nossos filhos assemelha-se ao nosso. O relógio do
tempo tritura todos os nossos sonhos e as recordações.
Se Deus existisse tudo seria desculpável, a dor imunda e
inútil seria perdoada sem revolta. Mas Deus ausentou-se.
Deus? Nunca pude imaginar o seu rosto. Tem coração?
No seu olhar omnipotente brilha a ternura dos pais
terrestres? Em que pensavam, que feições lhe deram
aqueles que inventaram a sua existência? Os loucos
que se passeiam, sonâmbulos, nos corredores da casa
deserta, que vão de quarto em quarto a murmurar
palavras incompreensíveis, provavelmente falam
com ele. Eles deliram. Talvez no delírio adquiram
algum sentido a vida e a morte. Ou seja esquecida
a miserável condição. Talvez. A nós escapa-nos o
mistério. Podíamos segui-los, podíamos acompanhá-los
na sua deambulação insensata. A tentação assalta-nos.
Hesitamos. Mas afastamo-nos, incomodados. Não
renunciamos à lucidez. Quem, se pudesse, teria
preferido não viver? Quem, se pudesse?

Do livro de poemas A Ignorância e o Conhecimento
a publicar em breve pela OVNI (os poemas mais 
antigos datam dos anos 90)

Sunday, March 6, 2011

Mal-entendido



Eles estavam sentados por detrás de uma mesa enorme em cima de um estrado, estavam de fato e gravata e olhavam para mim lá de cima com uma vaga curiosidade. Eu estava em calções e tronco nu sentado nas lajes frias, eles tinham-me encontrado no jardim municipal ao lado da catedral onde eu estava a tomar sol e tinham-me trazido à força, tinham-me amarrado as mãos atrás das costas com um cordel. O que é que eles queriam? Perguntaram-me o nome, eu não respondi. Perguntaram aos dois guardas que me tinham trazido por que razão é que eu estava ali, o que é que eu tinha feito, eles disseram que obedeciam a ordens superiores e que não sabiam mais nada. O homem que me interrogava suspirou, abanou a cabeça, trocou impressões com os colegas que estavam sentados ao seu lado e olhavam para mim e disse-me para falar. Eu não tinha nada a dizer, eu não sabia nada, eu não podia falar, por isso calei-me e olhei para o chão à minha frente. Está a portar-se como uma criança birrenta, disse o homem das barbas. Nós só queremos ajudar. Não me pareceu que estivesse zangado. E a mim tanto se me dava.


Mas o que é que ele fez? De onde vieram as ordens superiores? Onde está o papel? O homem estava visivelmente irritado e não sabia como resolver o problema. A mim, já disse, tanto se me dava. Eu estava no jardim a tomar sol, não é verdade? A história que eles tinham criado, em que me tinham metido, eles que a escrevessem e resolvessem como quisessem. Não contem é com a minha colaboração, pensei eu. Eu estava na minha vida e eles na deles. Eu nem sequer os conhecia, não sabia quem eles eram.


Não me doía nada. Não tinha remorsos nem projectos. Não tinha fome nem sede e parece que também se me tinham varrido da memória muitas coisas. Estava ali, mas era como se não estivesse. Observava o que se passava, ouvia o que eles diziam, mas não sentia nada em particular, não era feliz nem infeliz. Lembrava-me, sem grandes detalhes, de estar no jardim ao lado da catedral a tomar sol quando eles me encontraram e me trouxeram, mas de pouco mais. Eles finalmente cansaram-se de olhar para mim e disseram aos guardas que me levassem para um quarto, que não me tratassem mal, que me dessem de comer e de beber e que depois logo se via.


Deixaram-me sozinho enfim. Paredes brancas, uma janela que dá para o jardim, um plátano em frente da minha janela. Uma cama, um mesa, uma cadeira azul. E o sol, lá fora, a brilhar. Tenho tudo o que necessito. Haverá papel e uma caneta por aqui? Havia, na gaveta da pequena cómoda: um bloco de papel e um lápis. Sentei-me no chão, juntei as mãos, estendi os braços para cima lentamente, respirei fundo. Mantive a cabeça baixa e os olhos fechados. Existo, sinto que existo, não sei mais nada, não quero saber mais nada. Se começasse a pensar, a lembrar-me, a fazer projectos, provavelmente ficava ansioso, preocupado, deprimido, recomeçava a soluçar. Creio que era o que tinha acontecido antes e eu sentira-me abandonado, miserável, tão só que tivera vergonha de mim. Por isso evitava pensar.


Com algum treino eu era capaz de criar, durante pequenas unidades de tempo que não media, com enorme esforço, o vazio na minha cabeça, no meu espírito. Os pensamentos, porém, estavam sempre a querer entrar, sucediam-se uns aos outros numa procissão obsessiva, não me deixavam em paz. As palavras surgiam sem razão, uma primeiro, depois as outras, encadeadas nela. Coisas frequentemente sem nexo, era isso que me cansava, a incoerência. Imagens do passado também: uma estrada na Provença, uma montanha em Espanha, um quarto em Londres, um restaurante no País Basco. Eu não escolhia os pensamentos mas já conseguia por vezes mandar um pouco neles, recusava-os logo ou prolongava-os, controlava a ditadura que eles queriam impor-me. Fiquei ali sentado a fazer esforços para me concentrar no vazio, a tomar consciência do meu corpo e dos meus gestos. Depois levantei-me e fui sentar-me na cama a olhar para a parede.


Os dias sucederam-se monotonamente. Para mim era sempre o mesmo dia, nada a não ser a noite separava um dia dos outros, era tudo igual. Deixavam-me sair, mas queriam que eu viesse dormir ao meu quarto. Não me aborreciam e até me davam dinheiro para o café e os cigarros, para comprar livros e ir ao cinema. Não sabiam que fazer de mim, não sabiam por que razão é que eu viera ali parar, mas tratavam-me como se eu fosse da família, qualquer coisa assim. Só quando me tinham trazido é que me tinham tratado mal. Não me conheciam ainda, pode ter sido por isso. Mas depressa se deram conta de que eu não sou má pessoa, deixaram de tratar-me como um criminoso. Eu provavelmente sabia mais sobre a minha vida e sobre o que se estava a passar do que eles, do que ninguém, mas preferi manter a postura do ignorante, daquele que não sabe que se esqueceu, que talvez tenha tido um traumatismo psicológico ou craniano. Fiz que me esqueci e acabei por me esquecer, embora as lembranças estivessem à espreita, sempre à procura de uma falha da minha parte, de um momento de distracção. E nunca falei, não abria a boca senão para respirar, para comer, para beber, para fumar. Durante muito tempo não conheci nenhuma mulher, senão também usaria a boca para a beijar. Ri-me quando me veio esta ideia.


Isto durou uns meses, a minha vida já estava a organizar-se à volta de alguns hábitos. Eu dormia, lia, comia, escrevia, saía do quarto para ir dar uma volta no jardim ou na rua. Nunca me afastava demasiado, nunca perdia de vista o imponente edifício branco onde agora tinha a minha residência. Tinha-me esquecido de onde tinha vindo e do que tinha vivido antes e entendi que também não me interessava saber mais do que o pouco de que, intermitentemente, me recordava. E então uma tarde ela veio, trouxeram-na ao meu quarto e deixaram-na a sós comigo. Foi um choque. Ainda a amava? É possível, mas ela não merecia ser amada. Não gostei de a ver, apeteceu-me chamar-lhe bruxa e fazer-lhe caretas. O que é que ela queria? Vinha tentar mais uma vez enredar-me nas suas mentiras, fazer-me acreditar, por exemplo, que ela, sim, tinha tido amor por mim, enquanto que eu, ao fim de pouco tempo, já lhe estava a dizer que procurasse casa e fosse viver para outro lado. Era verdade até certo ponto, era verdade que ela me cansara a dado momento, mas não era verdade que eu não a amara e que fora ela que me amara, não, isso não era verdade, era uma mentira gigantesca que eu já não podia ouvir sem me revoltar nem protestar.


Ficou sentada numa cadeira a olhar para mim e eu sentado na cama a tentar controlar a minha irritação, a reprimir o que ainda restava do amor que lhe tinha tido. Depois ela começou a falar. Perguntou-me por que razão é que eu a odiava, disse-me que me tinha amado mas que eu tinha estragado tudo, que praticamente a metera nos braços de outro homem. Importaste-te quando eu comecei a sair com ele? Não, nada. Interessaste-te em saber o que eu sentia, o que estava a acontecer na minha vida nesse momento difícil? Não, nada. E quando eu fiquei grávida tu foste-te embora. Preocupaste-te comigo? Não, nada. Deixei-a falar, não abri a boca. Conversa fiada, eu conhecia o tom e o estilo. Se ela descobrisse que nada era como ela dizia, quem sabe, talvez pudéssemos conversar. Assim não. Nervos frágeis. Incapacidade de se ver tal como era. Obsessões difíceis de explicar. Tinha-me saído na rifa da vida conhecê-la e ter de a aturar.


Perguntou-me por que razão é que eu tinha comprado a Kawasaki, se fora já com intenção de fazer o que fiz. Eu pensei: que Kawasaki? o que é que eu fiz, de que é que ela está a falar? Mas não disse nada, ignorei-a. Se ela estivesse calada, obtinha o mesmo resultado exactamente. Mas ela desprezava o meu silêncio. Tinha vindo com um discurso preparado e não tinha em conta a realidade tal como ela era nem o facto de as circunstâncias lhe serem desfavoráveis, a ela e ao projecto que a trouxera ali. Nunca percebi essa obsessão doentia com a Kawasaki. Era para fugires de vez e para longe, para onde eu nunca mais te pudesse encontrar? Como se isso fosse possível. Tu sabes bem que não podes viver sem mim. Nunca percebi os teus devaneios, as tuas maluquices, mas provavelmente nem tu sabias o que é que querias, andavas perdido, meio doido.


Acusou-me de ter atropelado não sei quem, que eu tinha comprado a mota japonesa com essa intenção, que tinha esperado por ele uma manhã na nossa rua e lhe tinha partido as pernas e duas costelas. Ele? Quem seria ele? Eu não tinha a mínima ideia. Ficaste mais feliz por isso? Pensas que te perdoo? Ela ia falando e eu calado, a não entender a história que ela contava nem o que é que ela queria exactamente de mim. Nunca suportaste que eu te substituísse por outra pessoa, levaste isso tão a peito que até parece que te castrei. Olhei para ela, provavelmente tive pena de a ver tão infeliz, mas o meu rosto permanecia inexpressivo e continuei sem dizer nada. Tanto barulho para quê? Sim, fiz o possível e o impossível para me manter frio, ausente, inexistente, alheio às histórias que ela contava, que sempre me surpreendiam e que não me interessavam para nada.


A presença dela, no entanto, ia fazendo crescer em mim a contradição insuportável entre o amor e ódio. Ela não sabia, nunca soube o que é o amor, por isso não adiantava eu tentar iludir-me. E durante alguns segundos senti náuseas, nojo. Ela era aparentemente uma pessoa interessante, podia enganar quem quisesse com os seus ares de menina elegante, com as suas pestanas bem desenhadas e a sua boca húmida de bâton, mas a mim não me enganava, eu conhecia-a, eu sabia que dentro da caixa do corpo embrulhado em farrapos coloridos não havia nada, nem ideias nem espírito, nem alegrias nem remorsos. Era o vazio total, a ausência absoluta de sentimentos, o deserto.


Lembrei-me de que quando eu ia visitar a minha ex-esposa, com quem, depois de três anos de mal-entendidos, eu reatara relações de família e amizade, ela ficava cheia de ciúmes despropositados. Para se vingar das traições e ofensas imaginárias que eu lhe fazia ia ter com um amante imbecil que arranjara na Editora onde então trabalhava. Claro, como acontece frequentemente nestes casos, só descobri isso mais tarde. Nunca entendeu nada, o amor que eu lhe tinha passou-lhe ao lado. O amor para ela nunca percebi o que podia ser exactamente. Passar o tempo aos beijos? Ou, sentados no sofá, a ver filmes melodramáticos? Personalidade oca, só tomando-se por outra pessoa ela conseguia dar-se a ilusão de ter identidade própria e um destino pessoal, projectos, ideias, ideais seus. A dado momento pôs-se a imitar a maneira de vestir e comportamento de mulheres que via nos filmes. Agora viera ver-me porque provavelmente se aborrecia sem mim e precisava de continuar a tragicomédia melancólica e histérica da sua existência. Vinha para me aborrecer, metera-se-lhe na cabeça que eu lhe tinha atropelado o amante com a minha Kawasaki. E ao ouvi-la falar, incomodado com a sua cabeleira desgrenhada e as suas olheiras, eu nem me lembrava sequer do nome dela, cheguei a perguntar-me se a conhecia ou se não se trataria de um grande mal-entendido.


Como sempre fizera antes, ela estava de novo a atribuir-me a responsabilidade de acontecimentos nos quais eu não tinha desempenhado, se é que eles tinham tido lugar, algum papel. Para me livrar dela, provavelmente para a irritar, para a confundir, ou talvez para desdramatizar a situação que cada vez me parecia mais burlesca, decidi-me a falar, isto é, pus-me a fazer uns ruídos que se assemelhavam a palavras encadeadas numa frase: protula noula vencilola oido leana trilova pa ma treteni podarqueli dajdalo ulna piopopu fiariner mioscar giluno puaduro ilicor toritra liputina. Ela olhou para mim perplexa, estava furiosa, não sei se se deu conta de que eu sabia o que estava fazer ou se pensou que eu enlouquecera. A mim era-me indiferente o que ela pudesse pensar.


Então, inesperadamente, ela aproximou-se de mim, pôs a mão dela na minha e, com lágrimas a estrangularem-se-lhe na voz, murmurou meigamente: por favor, fala comigo, ouve-me, responde-me, não te ausentes, tu não estás tão doente como pensas. Eu vi os olhos dela muito abertos, a boca dela suplicante, as mãos dela muito brancas. Senti a intensidade das suas emoções despropositadas, chegou-me às narinas o perfume de pêssego com que ela enlambuzava o corpo. E hesitei. Não sei se tive medo de me comover, é possível. Também pensei: esta mulher enlouqueceu. Tinha-a visto momentos antes agitada, completamente perdida, parecia um pássaro desvairado a esbracejar. E agora isto. Estremeci, mas não reagi. Protegi-me, fiz de conta que não tinha ouvido nem visto nada. Porque é que ela não me deixava em paz?


Ela, entretanto, tendo percebido que eu permanecia insensível aos seus exageros, recomeçou a queixar-se e a acusar-me. Eu respondia à maldade e insensatez do seu discurso com frases perfeitas na minha língua acabada de inventar: nolujomi fininupo ledpinai epodelin nomatoto olu oliu imurai lutarei dilimpi nunilu minuno bitloni ogirai ogilo. De vez em quando ria-me, dava uma gargalhada.


Finalmente cansou-se, olhou-me com comiseração e disse, com solenidade e um ar severo, dando-se grandes ares, que eu era um boneco, uma criança, um parvo - e além disso um criminoso, sim, um assassino, e que só estava ali naquele hospital psiquiátrico porque os médicos tinham decidido que eu agira movido por uma força superior incontrolável, descarrilamento justificado dos nervos, compreensível e desculpável tendo em conta as intrigas insensatas em que, voluntária ou involuntariamente, ela me tinha envolvido. Ela, evidentemente, estava revoltada com tal versão dos acontecimentos e vinha dizer-mo na cara, queria enfrentar-me, esclarecer tudo, acabar com as ambiguidades.


Deixei-a falar. Nada daquilo me dizia respeito. Ela de vez em quando perdia a noção da realidade, eu já sabia isso há muito tempo. Pelos vistos depois de uns meses sem me ver ela sentira de novo necessidade de vir envenenar o ar à minha volta. Reparei que tinha envelhecido. Olheiras profundas, uma magreza esquelética que começava no rosto e se prolongava até às pernas de meias negras em cima dos saltos altos. Mas nem assim renunciava a dar comigo em doido.


Eu nem sequer sabia andar de mota, tinha tentado uma vez, tinha comprado umas lições numa escola de condução mas não resultara, ia caindo, por isso o projecto de comprar a Kawasaki nunca se concretizara a não ser na sua cabeça de alho chocho avariada. E com que então eu estava num hospital psiquiátrico? De onde é que lhe viera essa ideia?


Uma manhã, alguns dias mais tarde, eu já me tinha esquecido desse incidente desagradável e estava à janela do meu quarto a olhar para o jardim lá em baixo. E vi uma mulher jovem, um pouco loira, de camisa cinzenta e saia vermelha, sentada num banco de pedra a ler um livro. Ela viu-me e acenou-me com a mão. Conhecia-me? Seria para mim? Desci as escadas apressado e surpreendido, fui ter com ela ao jardim. Disse-me que era a nova bibliotecária. Eu sentei-me na relva, no chão, em frente dela, e falámos de livros, de música, dela e de mim, um pouco de tudo e de nada. Antes de arranjar este emprego no Hospital, contou-me ela, fui gerente de um restaurante. Mas uma coisa não tem nada a ver com a outra, disse eu. Ela riu-se, eu vi-lhe os dentinhos brancos cheios de malícia infantil a brilhar na carinha com desfaçatez. Acrescentei: e isto não é um hospital, que confusão é essa? Ela riu-se de novo e acariciou-me o rosto com dois dedos.


A partir desse dia, eu, de vez em quando, ia à biblioteca no rés-do-chão falar com ela ou encontrava-me com ela no jardim. A minha vida tornou-se menos monótona e eu já não necessitava de fazer tanto esforço para impedir os maus pensamentos de se introduzirem na zona consciente do meu espírito. Apesar disso nunca deixei de me sentar no chão do meu quarto duas ou três vezes por dia a tentar concentrar-me, a respirar fundo, a fazer o possível por não pensar em nada, em absolutamente nada.


Já nos conhecíamos há três meses quando eu, uma tarde, a convidei para ir tomar um café comigo depois do trabalho, você pode escolher o sítio e a hora, disse eu. Em vez disso ela veio buscar-me ao fim da tarde, eram umas cinco horas, e levou-me a um bar ali perto, numa rua onde não paravam de passar os autocarros. Sentámo-nos ao balcão a beber um copo de vinho e a conversar. O bar estava cheio de rapazes e raparigas, de homens e mulheres. Eu percebia que ela não desgostava de mim porque ela me deixou acariciar-lhe a mão e me olhava directamente nos olhos, sem medo. A dado momento foi ela que, mais ousada, apertou a minha mão com a sua. Eu ainda estava um pouco surpreendido com o que estava a acontecer, a cabeça andava-me um pouco à roda, mas sentia-me bem. Quando, num acesso de ternura, eu lhe fiz uma festinha na cara, ela riu-se timidamente e corou. Quando, um pouco mais tarde, depois de outro copo de vinho, eu lhe pus o braço em cima do ombro e a puxei um pouco para mim, ela afastou-se e disse: vamos devagarinho, eu não sou de pressas, preciso de tempo. Achei bem.


À noite, sozinho no meu quarto, perguntei-me se ela não seria a pessoa de quem eu tinha sempre estado à espera, alguém com paciência, serenidade, inteligência suficiente para entender as coisas sem se excitar exageradamente e sem as deformar. Não se podia saber ainda. Pus-me a escrever um poema em que falava de mim e dela, de nós, e quando estava quase a terminar recebi uma mensagem dela no telemóvel. Dizia que tinha gostado de estar comigo e agradecia-me a boa companhia que eu lhe fizera, obrigado. Já tínhamos combinado sair outra vez alguns dias mais tarde, mas de repente senti eu também saudades dela, dolorosamente, e apeteceu-me telefonar-lhe. Decidi não fazer nada, no entanto, disse-me a mim mesmo: espera, não te precipites, acabas por estragar tudo; não tenhas pressa, não acredites que já a amas ou que ela te ama, deixa os sentimentos amadurecer e vê se percebes o que está a acontecer, o que sentes.


No dia seguinte, ou poucos dias depois, bateram-me à porta de madrugada, eu estava a dormir e acordaram-me. Não gosto que me acordem com pancadas na porta e ainda por cima quando fui abrir não havia ninguém. Os outros quartos no corredor creio que estavam desocupados. Ou então as pessoas que os ocupavam estavam a dormir, não ouvi nenhum ruído. Voltei para a cama, estava furioso. Lá fora chovia e por isso não saí do meu quarto o dia inteiro. Tinha saudades da bibliotecária mas achei-me esquisito, doía-me a cabeça e tinha dificuldade em concentrar-me, não me sentia em condições de a ver nem de falar com ela nem com ninguém.


No dia seguinte a bibliotecária não veio trabalhar e eu, desiludido, passei a manhã a escrever uma carta. Contei que estava a viver numa ilha e que da minha janela se vê o mar, o que é totalmente falso mas podia perfeitamente ser verdade. Expliquei que estava a pensar fazer um filme ou talvez escrever um livro em que as personagens não tinham rosto, só tinham corpo. Ou seria ao contrário? A acção passava-se numa cidade onde as ruas não iam dar a lado nenhum, só iam dar a outras ruas e depois, a dado momento, percebíamos que tínhamos voltado ao ponto de partida. Não se podia sair da cidade, o campo era-nos inacessível. Diverti-me muito a escrever estas parvoíces, mas depois não sabia a quem enviar a carta. Meti-a na gaveta e pensei noutra coisa. Talvez a possa dar à bibliotecária, pensei. Talvez ela me explique o que é que aquilo que eu escrevi na carta realmente significa. Porque tudo significa sempre alguma coisa, imagino.


Passei o dia sozinho e voltei a dormir pessimamente. Pesadelos. Eu ia num autocarro, atravessávamos montanhas cobertas de neve, as árvores à beira da estrada verdejavam. No autocarro, além de mim, viajam seis pessoas: um velhinho de chapéu branco que ia a comer tremoços; um casal de jovens namorados, ele ia a dormir no ombro dela e ela ia a ler; dois militares de cabeça rapada que iam a jogar às cartas e a beber cerveja; e uma adolescente de tranças vermelhas com um coelho no colo, pensativa. O autocarro ia em piloto automático, não tinha motorista, mas ninguém parecia preocupado com isso. E no entanto a estrada eram curvas e curvas sem parar à beira de precipícios. E a dado momento começámos a descer. Quando tomei consciência disso comecei a transpirar e virei-me para os meus companheiros de viagem. Mas eles não se davam conta de nada ou o que estava a acontecer era-lhes indiferente. Percebi que estavam todos mortos, não se mexiam, tinham ficado petrificados na posição em que eu os vira antes. Pareciam bonecos de cera ou manequins de madeira, balançavam com os solavancos do autocarro mas não deslizavam dos assentos. Desamparado, em pânico, gritei. O que é que eu estava ali a fazer, aonde é que eu ia? Foi então que acordei, mas não tive coragem de me levantar. Meti a cabeça debaixo dos lençóis e fiz por adormecer de novo. Não consegui. Assustado e inquieto, não saí do quarto o dia inteiro. A dado momento pus-me a ler um jornal mas a minha atenção não se fixava, parecia uma borboleta doida incapaz de se pousar.


Perguntei à minha amiga bibliotecária se ela pensa que os nossos sonhos significam alguma coisa. Estávamos sentados no jardim e contei-lhe os pormenores do meu pesadelo. Passou um cão na rua a ladrar atrás de um garoto, um homem gritou ao longe, ouvi bater uma porta nas minhas costas. Ela ouvia-me com atenção mas ficou pensativa e não me respondeu logo. Apeteceu-me contar-lhe que tinha escrito uma carta divertida mas achei que não vinha a propósito e calei-me. Ela acabou por dizer que na opinião dela os sonhos não se podem ler como se fossem livros ou acontecimentos que tiveram realmente lugar, na sua opinião os sonhos não significam nada em particular, não denunciam o passado nem anunciam o futuro, são o nosso lado infantil, uma maneira de escapar à lógica aprendida, opressora e castradora do quotidiano, uma válvula de segurança. Espantei-me: castradora? Sim, castradora, repetiu ela, a disciplina e a lei que nos impõe a sociedade atenta contra os nossos instintos primários. E prosseguiu: nós gostamos de histórias, saber como é que as construímos pode ser interessante, ora acordados, ora a dormir, vamos juntando caras e episódios, depois queremos encontrar ou pôr sentido e intenções em tudo o que nos acontece no que fazemos, temos medo do que não tem significação, queremos ordem acima de tudo, de modo que tudo se explica. Não fiquei muito convencido, perdi-me um pouco nas explicações dela, mas embora não tenha opinião sobre o assunto preferi dar-lhe razão.


Pancadas na porta outra vez, deviam ser umas três da manhã. Irritadíssimo, fora de mim, fui ver quem era. Estava um rapaz despenteado em pijama no corredor, assim que me viu correu para mim: salve-me, senhor, salve-me, deixe-me esconder no seu quarto, eles voltaram e andam à minha procura, querem mandar-me para a Sibéria. Assustou-me. Eu afastei-o e perguntei-lhe: onde é a Sibéria? Ele: tenha piedade de mim, senhor, deixe-me entrar, eles andam há dez anos à minha procura e agora já descobriram onde eu me escondi. Eu não sabia que fazer nem que dizer. Não disse nada. Passei-lhe a mão pelo cabelo com um carinho paternal e disse-lhe: vai-te deitar, se eles aparecerem por aqui à tua procura eu dou cabo deles, não me escapa um. Ele olhou para mim mais tranquilo mas ainda hesitante. Vai, vai, disse eu, não te preocupes, não penses mais nisso. E ele foi, lentamente dirigiu-se ao quarto dele. Sem nunca olhar para trás entrou e fechou a porta à chave. Votei para a cama. Há cada doido. Dormi bem o resto da noite, surpreendentemente.


Mais ou menos uma semana depois deste episódio perguntei à bibliotecária se não seria possível ela arranjar-me um telemóvel: o tédio, esta disciplina austera, esta desolação sem fim matam-me. Ela disse: ora. Mas acrescentou: se quiser telefonar, eu empresto-lhe o meu Samsung. Estávamos no gabinete dela, ela estava a escrever num livro de contabilidade enorme. Agradeci e fui para a janela ouvir cantar os pássaros nas árvores do jardim. Um quarto de hora mais tarde pedi-lhe o Samsung e fui encostar-me de novo à janela para fazer um telefonema. Apesar dos meus esforços, infelizmente não consegui lembrar-me do número para onde queria ligar nem do nome da pessoa a quem queria falar. Devolvi-lhe o telemóvel e pedi-lhe desculpa. São coisas que acontecem, disse ela, fica para outra vez.


O que é que acontece, porque é que ela disse que são coisas que acontecem, pensei eu com os meus botões, à noite, antes de me deitar. Não tinha acontecido nada, precisamente. Depois de lhe devolver o telemóvel eu tinha-lhe pedido para me trazer um livro de Rimbaud e outro de Baudelaire e depois tinha vindo para o meu quarto ler. Quando eu ia a sair com os livros na mão ela sorriu e disse: vai-se embora sem dizer nada? até amanhã. Não me contive, perguntei-lhe: e a nossa paixão não progride, quando é que tu te decides? Mas falei tão baixo que ela não me ouviu. Ela continuava a escrever no livro de contabilidade, só tinha levantado os olhos para falar comigo. Saí meio pesaroso, mas logo a seguir concluí que podíamos voltar ao assunto mais tarde, que não valia a pena precipitar já as coisas, é preciso dar tempo ao tempo.


Passaram mais algumas semanas, eu ia gozando a vida sem grandes preocupações. Via a bibliotecária quase todos os dias, às vezes falávamos horas e horas, a nossa paixão secreta ia progredindo sem sobressaltos de maior. Eu estava seguro de gostar dela, sonhava muitas vezes com o rosto e os braços dela. A maneira como ela me olhava, cheia de atenções e ternura nos olhos que às vezes se lhe humedeciam, deixava-me tranquilo quanto ao futuro. Uma vez beijámo-nos. Ela tinha vindo ter comigo ao meu quarto no intervalo do almoço e estávamos sentados na minha cama. Ela tinha-me pegado na mão e tinha começado a fazer-me festas na cara e no cabelo. Na manhã seguinte, quando abri os olhos, a primeira coisa que pensei foi: provavelmente vamos casar um com o outro mais cedo ou mais tarde.


Poucos dias depois, uma tarde, os dois tipos que eu tomava por guardas, mas que provavelmente eram apenas empregados da residência, vieram buscar-me e levaram-me outra vez à sala grande. Esta gente é doida, pensei eu, deixam-me sair, dão-me dinheiro para ir ao cinema, depois uma manhã ou uma tarde desembarcam aqui dois tipos com cara de parvos, tiram-me a camisa e obrigam-me a ficar descalço, amarram-me as mãos atrás das costas, arrastam-me atrás deles até à sala dos grandes acontecimentos. Tratam-me como se eu fosse um criminoso, uma ameaça para a sociedade ou para alguém. Sou algum prisioneiro político, uma ameaça para o Governo? Estarão a confundir-me com o rapaz que tem medo que o mandem para a Sibéria?


Entrámos pela enorme porta e lá estavam reunidos os mesmos personagens engravatados. Os guardas empurraram-me para o chão e sentado nas lajes olhei com uma mistura de curiosidade e indiferença para as figuras imponentes por detrás da mesa, lá em cima no estrado. Então o homem de barba que estava ao centro da mesa dirigiu-se a mim amavelmente e disse que eu estava ali por engano. Alguém tinha apresentado queixa contra mim anonimamente mas depois de analisados os factos os investigadores tinham concluído que eu era totalmente inocente das acusações que me tinham feito, isto é, eu nunca atropelara ninguém, não batera em nenhuma mulher, não atentara contra a segurança do Governo ou do Estado, era tudo um mal-entendido. Portanto podia ir-me embora quando quisesse. Se sou inocente por que razão é que sempre me mandam sentar no chão, nas lajes frias, e me amarram as costas, pensei eu. Mas não me apetecia complicar as coisas, calei-me. Eu sabia que eles acabam sempre por ter razão, que com eles não adianta discutir.


Achei piada que me tivessem trazido para ali por engano e ri-me silenciosamente. Afinal, como se provava agora, eu nem conhecia a mulher que tinha vindo chatear-me com as suas histórias inverosímeis de doida. Mas tanto se me dava estar ali como noutro sítio qualquer. Além disso agora eu até preferia ficar onde estava: o destino, apesar dos equívocos em que me metera, tinha-me posto no caminho de uma mulher que olhava para mim e parecia ver-me, uma rapariga que tinha paciência para me ouvir e estar comigo. E ela também gostava de livros, de fotografia e de viajar. Como eu, exactamente. Então, sem eu querer, soltou-se-me a língua, ouvi-me dizer que se não se importassem. E que, visto que eu me sentia bem onde estava, que depois de alguns problemas iniciais me adaptara tão bem à situação, preferia não me ir embora. O barbudo engravatado olhou-me, surpreendido, e trocou algumas impressões com os colegas. Depois virou-se para mim com um sorriso: nós estamos aqui porque não podemos deixar de estar; você pode ir-se embora e prefere cá ficar, abdicando da sua liberdade, da sua vida. Falou de lado, para os outros: se isto tem sentido, coisa mais absurda. E vociferou na minha direcção: nonsense, c’est le monde à l’envers. Levem-me este senhor daqui e conduzam-no ao portão imediatamente.


Apetecia-me explicar-lhe que me deixavam sair do meu quarto e da casa quando me apetecia para ir dar uma volta - ou para ir ao cinema, à biblioteca, aos bares ou ao futebol - e que a liberdade, como todos os sentimentos, ideias e impressões, está dentro de nós, é um fenómeno puramente mental, uma inocente convicção, nada mais do que isso. Ali até me davam algum dinheiro, o suficiente para as minhas reduzidas despesas, para manter em funcionamento os meus reduzidos vícios. Além disso, continuei eu, embora seja um pormenor aparentemente sem grande importância eu já quase não choro e há muito que deixei de ter pesadelos. Para terminar acrescentei, com algum ardor na voz: a esperança de vir a ser amado renasceu em mim, vocês não sabem mas eu sinto-me uma pessoa nova, não me vou embora, tenham em conta o meu ponto de vista, afinal trata-se da minha vida e tenho o direito de escolher o meu destino. Lembrei-me do rapaz que me tinha batido à porta de madrugada, aterrorizado, e pensei: e se para se vingarem de mim me mandam para a Sibéria? Mas afastei a ideia, não me pareceu que esse risco fosse real.


Tive pena deles, coitados. Eles ainda acreditavam na existência de uma vida mais verdadeira fora dali e sonhavam com ela dia e noite. Embora continuassem a escapar-me inúmeros detalhes da situação que em grande parte me parecia incompreensível – por vezes eu pensava que estávamos todos numa ilha ou numa prisão, outras vezes que o grande edifício era, como dissera a bibliotecária, um hospital - entendi que eles se imaginavam desterrados, obrigados a viver longe de um lugar idílico onde imaginavam que reinava a justiça, onde as pessoas tinham prazeres e recebiam recompensas, onde o amor triunfava da mentira e do vício, onde a distinção entre o bem e o mal, entre a inocência e a culpa era tão manifesta, tão evidente, que ninguém podia confundir o que era com o que não era nem enganar-se nunca. Não os quis desiludir. Evidentemente, os prisioneiros eram eles, que viviam enganados e acreditavam na existência de um paraíso terrestre. Acenei com a cabeça, pus os olhos humildemente no chão, fiquei à espera que se decidissem a levar-me de volta ao meu quarto branco. Já estava com saudades do plátano em frente da minha janela. Além disso, como já confessei, tinha razões secretas para estar excitado e não me querer ir embora: no dia seguinte eu e a bibliotecária, com quem dois dias antes tinha ido a Paris visitar a casa onde vivera Baudelaire e o túmulo de Chopin no Père Lachaise, devíamos ir a Itália visitar o túmulo de Petrarca e o túmulo de Dante. E mais tarde íamos à Alemanha visitar o túmulo de Beethoven e o túmulo de Schumann, já estava decidido.

Um Animal de Pele Branca, Imaculada (OVNI, a publicar em breve)