Friday, April 29, 2011

Uma questão de estratégia

A tentação de responder, de não deixar sem réplica as provocações, é grande, mas a gente tem de resistir, não se pode passar a vida a responder ao que dizem e pensam outras pessoas, era o que faltava, e depois não é seguro que nos estejam a provocar a nós exactamente, é preciso ter cuidado, não ficar mais paranóico do que o necessário, aliás tenho uma teoria a esse respeito, disse ele, o jovem que numa mesa do bar ao lado da minha ia alternando o abrir a boca para falar e o abrir a boca para beber a cerveja, e a rapariga que o escutava parecia atenta, usava uns óculos de tartaruga castanhos e sorria-lhe ou ficava séria mas estava concentrada no rosto do rapaz, os blogues, por exemplo, dizia ele, tornam público constantemente o que durante muito tempo foi secreto, as opiniões das pessoas agora viajam, invadem todos os espaços, é preciso proteger-se, claro, convém estar informado, mas não exageremos, eu já decidi, blogues só leio meia dúzia, também não me dou com toda a gente nem me interessa saber o que pensa toda a gente, se começamos a lê-los então eles sabem que nos podem manipular, influenciar, irritar, por isso não leio a maior parte dos blogues, que na realidade só reproduzem o que se passa com as religiões, com os clubes de futebol e com os partidos políticos, eu por exemplo sou benfiquista e de direita, está a ver, detesto os sportinguistas e os socialistas, de comunistas nem falo, não existem para mim.

Os autores dos blogues, acrescentou a rapariga timidamente, jogam muito em equipa, eu sei, já percebi, eles conhecem-se, citam-se, adulam-se, protegem-se, criam redes de influência e de opinião, une-os o que eles pensam ser uma visão actualizada e informada do mundo, ou pelo menos pensam que sim, que têm o poder de nos catequizar, e que o estilo resplandece então quotidianamente, brilha, cega de tão luminosamente irónico e divertido, às vezes sarcástico, querem ocupar o lugar dos jornais, ter esse prestígio antigo e já desaparecido dos jornais, mas a gente topa-os logo e já sabe o que vai encontrar quando os abre.

Eu, pessoalmente, disse o rapaz, acho que vivemos numa grande balbúrdia e que os blogues contribuem para isso.

Mas há mais, há outras coisas, interrompeu a rapariga, as pessoas não agem sem razão, e se há tantos blogues é provavelmente porque a solidão aumentou, porque as possibilidades de comunicar com pessoas reais diminui à medida que avança o capitalismo, a americanização do mundo, a selvajaria da concorrência com as suas exigências, intranquilidade ambições, confusões, antropofagia, apetites, erros, ódios, mentiras, ameaças, escaramuças, sofrimento, feridas.

Seria no entanto um erro imaginar que basta ter um blogue para alcançar a fama e a glória ou para proteger-se da insignificância, comentou o rapaz, tudo isso, as palavras dos blogues, é fugaz, as palavras são fugazes, aliás já das palavras impressas no papel se tem de dizer o mesmo.

E então a rapariga dos óculos de tartaruga, ou que pareciam de tartaruga, interrompeu o rapaz outra vez e disse calmamente, ponderadamente, que também ela tinha tido um momento de entusiasmo com os blogues, a vertigem de ter uma voz, de ter estilo e de ser brilhante gratuitamente, por inspiração, apenas por inspiração, a consolação sublime da arte quando não há mais nada a que se agarrar, em que se consubstancializar, a satisfação íntima, secreta, de tão facilmente dizer o que lhe apetecia, o que sentia, o que tinha descoberto de manhã ou na véspera, o prazer sublime de criticar, de se opor, de apoiar, de estabelecer cumplicidades, quem sabe se não era uma maneira de entrar na história, mas uma tarde, alguns meses depois do início do entusiasmo, tinha tido uma espécie de pressentimento, tudo era pó, vento, areia nos olhos, ingenuidade e vaidade, sede infantil de glória e de estilo, ironias de estudante universitário frequentador assíduo de cafés e dos debates da cultura, que estúpido, como se ser conhecido fosse uma coisa assim tão importante, como se pensar em público provasse alguma coisa acerca da nossa competência e inteligência e cultura e sabedoria da vida, como se pensar e falar em público com a regularidade com que as vacas dão leite fosse o Alpe d'Huez da volta à França em bicicleta, meu Deus, meu Deus, meu Deus, as pessoas acreditam em coisas tão estúpidas, escrevo, falo, logo existo, ah, o Joaquim Agostinho, se ainda cá estivesse, se não tivesse sido vítima da incúria nacional e do seu entusiasmo e do cão que se atravessou no seu caminho, o Agostinho havia de dizer-lhes umas coisas sobre o que é subir as montanhas francesas de bicicleta e sem ser empurrado pelos espectadores, é assim, conhecem-me, ouviram falar de mim, logo existo, logo ganhei mais uma etapa, logo, por consequência, marquei mais um golo, escrevi e leram-me, logo posso sair à rua com ares de triunfo e de dono do mundo, e riu-se muito, muito, durante quase um minuto, deu mesmo várias gargalhadas com a sua bela garganta juvenil, depois puxou a cadeira um pouco para trás para ganhar distância, afastou os cabelos dos olhos e acrescentou: a verdade é que existo muito mais quando não falo nem escrevo e me limito a viver a minha vida sem me preocupar com o que se diz por aí, com essa algazarra, essa febre, essa mania da actualização permanente, reboot, reboot, reboot, quero lá saber, e a partir daí, quando cheguei a esta conclusão, comecei a dormir melhor, e faço mais coisas, não tenho, deixei de ter a desculpa do blogue como um bloco de notas de lamentos, lugar seguro e fixo, aparentemente, de resgate do que não se pode resgatar, lugar da obra, montra da loja do eu ou dos disfarces do eu, deixei de ter esse subterfúgio para me servir de compensação, o que não cheguei a fazer não o fiz, pronto, paciência, o que morreu ou falhou está perdido, por ora paciência, e se não mostrei estar a par das últimas e espectaculares novidades das artes e das ciências e da filosofia, paciência, que se há-de fazer, e sou tão lenta, com pouco me entretenho a pensar e a sentir, quanto às intrigas provincianas dos intelectuais portugueses, de uns que têm blogues e falam como se tivessem uma cátedra no púlpito da igreja, deixe-me rir, tem piada de facto, esses meninos, esses doutores têm uma vocação didáctica indiscutível, devem passar o tempo nos cafés a perorar, a mostrar como são sabichões e têm ciência e solução para todos os males do país, enfim, temos de aguentar, padrecas de merda, desculpe a linguagem, às vezes dá-me nojo este país, os outros provavelmente não são muito diferentes, só que têm a vantagem de ser maiores, enfim, paciência, e ao dizer isto encolheu os ombros e o rapaz ficou sério e disse: mas eu também escrevo nos jornais e há diferenças de facto, o jornal não me escraviza da mesma maneira, o blogue, também já percebi, é uma espécie de palco onde vou tentando mostrar ao mundo que sou inteligente, que estou informado, que têm de contar comigo, que não os deixarei pôr o pé em ramo verde, era o que faltava, eu até vivo em Lisboa e não sou idiota, até escrevo bem, sempre escrevi, aliás os blogues, penso eu às vezes, são como livros que a gente vai escrevendo, e se morrêssemos de repente a questão da obra póstuma nem chegaria a colocar-se realmente pois o blogue é como um diário fica logo tudo anotado. E ela perguntou, a rapariga perguntou se tudo fica anotado realmente, que ela duvidava, e ele, o rapaz, respondeu que não, pois de facto há coisas que a gente também escreve no papel e ninguém sabe disso, por outro lado, continuou ele, nós pensamos e sentimos tanta coisa que um blogue acaba por representar apenas uma parte muito reduzida da totalidade do ser em nós, isto é, daquilo que nos faz andar por aí de um lado para o outro, digamos que é um ideal, um projecto, um sintoma dos projectos que perseguimos, das preocupações que nos atormentam, e há que ter em conta o pudor, o pudor varia com as pessoas, com as situações, com os momentos, com os dias, e a rapariga interrompeu de novo o rapaz, levantou a bela mão branca suavemente e comentou que a questão do pudor não tinha nada a ver, evidentemente, com a exposição ou divulgação da vida privada, da vida real das pessoas, dos autores dos blogues, se há autobiografia nos blogues é apenas como projecto, como coisa que quer construir-se, disse ela, a exibição que deliberadamente decidimos fazer de certos aspectos da vida privada comum a todos nós, da vida real, igual, monotonamente igual à partida, de toda a gente, é apenas parte de um projecto, a face visível e sintomática do projecto, da intenção, do jogo, o ruído que se sobrepõe ao grande silêncio que nos habita, por isso, acrescentou ela, me fazem às vezes sorrir os bloguistas que imaginam ter-nos na mão graças às artes e manhas da retórica que adoptam, de que se mostram conscientes, que aplicam aos outros.

E quando o rapaz, que se mostrava atento ao que ela dizia enquanto acariciava os cabelos com a mão, serenamente acabou a cerveja, disse: ora aí está, a questão da sinceridade tem-me preocupado bastante, e não sei nunca que concluir, pois sem a gente se dar conta a estratégia tomou conta do discurso e do blogue, e da nossa intervenção permanente, intervenção talvez circular, muito limitada a nós mesmos, que nos lemos uns aos outros, a estratégia tomou conta da actividade, do desejo de influência, da vontade de intervenção. E a rapariga disse que na realidade talvez seja tudo uma ilusão, os resultados, as consequências dos nossos discursos, dos ruídos que nós vamos fazendo, provavelmente são nulos ou insignificantes, o gráfico que os representaria não nos é facultado, e a vida pública, a imagem da vida que de facto nós criamos ou ajudamos a ampliar, como antes a criaram e mantiveram os livros, os discursos políticos e religiosos e, incansavelmente, monotonamente, a prosa abusiva dos jornais onde uma minoria pretensamente esclarecida nos impingia falsa sabedoria, falsa justiça, falsa cultura, falsa ciência, isto é, uma imagem da vida, uma concepção do mundo que eram as das classes no poder que entre si dividiam, partilhavam opiniões...

E eu perdi-me das palavras que ela dizia, cansei-me da conversa apesar de a achar interessante, apesar do encanto, da sedução que sobre o meu espírito exerciam o rosto e as mãos da rapariga. Fui-me embora para casa ler um livro.

Do livro Um Animal de Pele Branca, Imaculada, a publicar em breve pela OVNI