Friday, March 16, 2012

O amor, lições


 Bouguereau

Não falemos de intenções. Não falemos de nada em particular. No filme da minha irrealidade está uma mulher à janela à espera do amor. É o que ela pretende. Acho-a convincente. Entendo a linguagem que ela fala. Dá-me prazer que ela tenha em conta de maneira tão segura a minha existência e a possibilidade de contar comigo para a realização dos seus projectos. Se ela está errada ao acreditar de maneira tão optimista nos seus desejos e em mim, porém, quem vai sofrer com os estragos? Eu estou atento e interessado, mas hoje percebi que também estou preparado para me escapar rapidamente do acontecimento se me sentir ameaçado ou achar que ele não tem sentido. Preferia acreditar, porém. Prefiro acreditar. Creio que me recordo de ter sido amado e de ter amado. Mas as recordações correspondem a factos ou a confusões? Se me amaram foi no passado, que não existe. Tudo se perdeu como se perde a água da chuva que corre nas valetas e desaparece não se sabe onde. Não ficou nada. As recordações, claro. Mas de que servem? A nostalgia, claro. Mas de que serve? Tudo cinza. Nada. Estou sentado ou de pé no labirinto à espera de uma resposta. Não estou ansioso. O tempo passa e só passa uma vez. O amor chega ou não chega? Estou a perder tempo. O comboio tem lugar para mim ou já vem cheio? Quem sabe se além da locomotiva traz também carruagens.


Eu tinha-lhe perguntado se ela gostava de poesia e ela tinha dito que sim. Ficámos de conversar, mas o tempo foi passando. O que é que eu queria dizer ao perguntar gostas de poesia? O que é que ela queria dizer ao responder que gostava? Encontrámo-nos num bar, pedimos vinho, de poesia falámos pouco. Ou não? Ela falou-me dela, eu falei-lhe de mim, ela falou-me de mim, eu falei-lhe dela. Poesia. Depois sentámo-nos lá fora no pátio para eu fumar um cigarro. Quando arrefeceu fomo-nos embora. Nesse momento já se tinha estabelecido secretamente entre nós um pacto: ela existia para mim, eu existia para ela. Deve ter sido para chegar a essa conclusão ou para a tornarmos irrefutável que nos encontrámos. Poesia? Claro.

O que é que é mais importante para ti numa relação, perguntou-me ela. A amizade e depois o amor, respondi eu. Se os alicerces de uma relação não crescem sobre a terra da amizade, os caprichos e a falta de escrúpulos do amor podem destruir tudo. Ela ouviu-me, estava de acordo. Quando foi a última vez que te apaixonaste, perguntou-me ela. Fiquei a pensar. Há dois anos tive uma paixãozinha por uma menina, disse eu. Fizemos amor duas vezes. Mas tu não vivias com outra pessoa, perguntou ela. Vivia, respondi eu, mas essa pessoa desapareceu, não a vi durante dois meses, eu tinha uma desculpa. Essa pessoa deu-me muito trabalho, devo acrescentar. Provavelmente foi por ela que me apaixonei a última vez, há oito anos. Não sei. Mas ela nunca entendeu nada do que estava a acontecer, vivia aterrorizada, era doente. Eu há muito tempo que não me apaixono, disse ela. Vi muita coisa e acredito pouco no amor. As pessoas mentem, desiludem-nos. Estou cansada de histórias medíocres. Fiquei pensativo. Depois perguntei-lhe: o que é que tu queres de mim? Ontem fiquei meio furiosa contigo, disseste que me amavas, respondeu ela. Tu não me conheces, não uses as palavras abusivamente. Muito zangada, perguntei eu. Não, só um bocadinho, respondeu ela. Que estás aqui a fazer comigo, perguntei eu. Ela olhou para mim. Depois disse: os homens que eu encontro não me impressionam. Tu és diferente. Talvez eu possa amar-te. Tenho várias razões para acreditar nisso. Gostava que isso acontecesse. Mas não sei se vai acontecer. Também não sei se vou acreditar em ti. Logo se vê. Eu fiquei calado. Achei-a mais honesta do que eu, mais sincera, mais corajosa, muito mais lúcida. E ela queria gostar de mim. O que ela dizia teria importância, merecia ser levado a sério? Eu não sabia. Apaixonei-me muitas vezes mas nunca me pediram antecipadamente justificações, garantias, precaução.


É sexta-feira. Estou constipado. Como nunca me constipo, concluo que a constipação se transferiu do corpo dela para o meu ontem à noite através dos lábios húmidos. Ela beija devagar e antes de me beijar olha atentamente para mim em silêncio. Eu não faço nada, não me mexo, fico à espera que os lábios dela cheguem. Eles chegam, não se detêm tanto tempo como eu desejaria. Ela afasta-se, fica a olhar para mim. Respiro fundo. Foi bom. Mas qual é o sentido disto tudo? Porquê tanta lentidão? Porquê esta escassez, tanta severidade? Mais tarde entendo: ela tem razão, ela sabe o que está a fazer. Eu, em contrapartida, estou cheio de vícios. Imagino-me sincero, profundo, mas estou cheio de vícios, quero aproveitar-me sem me comprometer, sem tomar consciência do que estou a fazer, sem me cansar. É isso que ela me ensina. As lições vão continuar, estou meio inquieto. Se não passo no exame? Se não sou capaz de amar nem mereço que me amem?


Vemo-nos uma ou duas vezes por semana. Ela é médica, trabalha no hospital, tem horários impossíveis. Um dia destes adoeço de propósito, digo-lhe eu, só para estar ao pé de ti um dia inteiro. E pensas que eu podia ficar ao pé de ti o dia inteiro, diz ela, nem sonhes. Vinhas-me ver de vez em quando, puxavas os cobertores para eu não apanhar frio, davas-me um beijo. E eu ficava contente, era como se estivesse em casa da minha mãe. Ah, então é isso, diz ela, precisas de uma mamã. Nós, os homens, somos apenas crianças crescidas, digo eu. Pois sim, responde ela. Queixo-me: só nos vemos uma ou duas vezes por semana, acho pouco. Mais tarde, quando vierem os médicos que estão de férias, vou ter mais tempo para ti, não sejas impaciente. Meio a rir: de qualquer modo por enquanto não mereces tratamento privilegiado. Entendo que ela diz: ainda não sei o que vou fazer de ti.


Não me enviou nenhuma mensagem, não me telefonou, hoje não soube nada dela. Nunca tive tanta paciência com uma mulher que acabo de conhecer. Provavelmente ela deu-se conta da minha superficialidade, não me leva a sério. Mereço que me amem? Não sei, já não sei nada.

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