Wednesday, April 11, 2012

Manhã tranquila




 Francesco Hayez







Then has everything that one does a purpose?






(Wittgenstein, OC: 152)






Manhã de bruma. O sol começa a romper, mais tarde ganha a pequena batalha contra as nuvens. Mas quando se sai de casa de manhã a humidade e a falta de luz são deprimentes. Não dormi muito bem, acordei com uma ligeira dor de cabeça. Preocupava-me a minha última decepção? Uma rapariga que me falava como se me amasse, mas que deixou de falar, foi falando cada vez menos, foi aparecendo cada vez menos. Não me disse que as nossas relações tinham mudado. Mas eu dei-me conta de que nas últimas semanas nunca tínhamos podido falar mais do que dez minutos seguidos. Achei pouco. Achei exasperante. Pareceu-me absurdo. Irritei-me. Cansei-me, disse-lhe que não podia ser, que renunciava.






Por enquanto ela cala-se, não diz nada. Pouco me importa. Estou farto dela, de tentar percebê-la. Os mistérios ou segredos que lhe atormentam a existência são-me totalmente inacessíveis. Nunca entendi nada, a dizer a verdade. E não se pense que não me esforcei, que não reflecti, que não quis entender. Ela diz que eu só sei falar, que eu não a oiço. Não é impossível que tenha razão. Mas as acusações e as manias dela, a sua arrogância de menina mimada há muito que me andavam a irritar. Com ela não se pode ter uma opinião, não se pode fazer um comentário, não se pode criticar. Não se pode sequer perguntar. É logo ofensa. Que se lixe. Tinha e tenho coisas importantes a dizer-lhe mas ela parece que não quer ouvir. Não quer saber, fechou-se em si mesma. Eu precisava de ter uma longa conversa com ela, uma conversa muito séria. Não é coisa que me aconteça com frequência, querer ter uma conversa séria e longa com alguém. Necessitava de explicar-me, de pôr os pontos nos is, de fazer-lhe algumas perguntas. Queria pedir-lhe humildemente que me ajudasse a entendê-la e a perceber o que se passa. Mas ela tem evitado todas as oportunidades de se encontrar comigo.






Eu sei que ela é uma rapariga responsável, trabalhadora, interessante. Estuda à noite, trabalha de dia, não depende de ninguém, não conta com a ajuda de ninguém. É inteligente e sabe o que quer. É séria, eu adoro-a. Mas há dias surpreendeu-me. Tem um lado adolescente e infantil que me tinha escapado. É verdade que ela é da idade da minha filha. Mas não se notava e eu tinha-me esquecido desse detalhe. Subitamente, porém, achei-a ingénua, ela ainda acredita em histórias de príncipes encantados, em amores romanescos muito tolos. Parvoíce, imaturidade. Nem a minha filha, que até então me parecia menos adulta, tem ingenuidades dessas. Em resumo: desiludiu-me. Pensei se também terá visto em mim a encarnação de um príncipe encantado capaz de lhe abrir a porta fabulosa das salas de algum castelo escondido na floresta. Não gostei nada da ideia, senti-me defraudado. Estava a perder o meu tempo. Se eu lhe falasse nisto assim, ela olhava-me ofendida e furiosa, era capaz de se levantar e de se ir embora. Tem um temperamento insuportável. Às vezes apetece-me mandá-la à fava. Era o fim da macacada. Calo-me, é preferível. Sento-me numa cadeira, vou juntando umas ideias, vou tomando o meu café. Mais tarde vou até à biblioteca da universidade consultar uns livros.






Ontem ela estava aqui no café quando eu cheguei. Passei por ela e nem a vi, só quando estava a pedir a bica ao balcão é que dei com ela sentada num sofá. Fui dar-lhe um beijo. Mais tarde ela veio sentar-se comigo na esplanada cá fora, mas já estava com pressa, eu conheço-a, percebi logo. Ia tirar a pasta da cadeira que estava mais perto para ela se poder sentar, ela preferiu a distância. Em vez de se sentar na cadeira ao meu lado, sentou-se numa cadeira mais longe. Pouco encorajador, tenho de reconhecer. Cheiro mal? Estava irritada ou melindrada comigo? Tem cada vez tem mais medo da intimidade e não pára de recuar? Recuar para onde? Porquê? Que vida é a dela? Com quem fala? Com quem se encontra quando não trabalha? Porque me pede para esperar? Mistério.






Nunca conheci uma pessoa tão estranha. Não podia prever, nada o deixava adivinhar. Um amigo meu, quando me viu com ela, disse-me que ela tinha ar de ser histérica. Protestei: histérica? eu conheço-a, não digas asneiras. Agora pergunto-me se o meu amigo não teria razão. Mas o que é ser histérica? Coisa ambígua, antiga, do tempo do Freud. Já ninguém usa tal termo. Imagino que dividiram o que antes cabia na definição de histeria numa série de conceitos mais restritos, mais rigorosos, mais especializados. Ainda assim não penso que ela seja histérica. Talvez, quando muito, bipolar: ora se entusiasma, ora duvida; ora sobe, ora desce; ora tem fé, ora desespera; ora sorri, ora deixa transparecer no rosto mil inquietações; ora me alegra, ora me aborrece. Bipolar. Tem mais sentido.






Se eu pelo menos pudesse conversar com ela. Não posso, creio que nunca consegui. Talvez no início, quando íamos jantar ao restaurante. Mas durou pouco esse tempo, um mês ou mês e meio. A minha impressão: ela não quer aprofundar coisa nenhuma, por isso desaparece, furta-se ao diálogo. Protege-se, mas protege-se de quê? Parece ter medo, mas medo de quê? Prefere as mensagens curtas de telemóvel, os telefonemas breves. Rapariga curiosa, muito curiosa mesmo. Fui-me apercebendo disso pouco a pouco, lentamente, preguiçosamente. Achava que não havia razões para me preocupar, dormia descansado. E depois pensei estas coisas, duvidei, comecei a interrogar-me.






Ela é jovem mas saiu de casa dos pais aos dezassete anos e já assumiu uma série de responsabilidades. Pode ser isso que lhe pesa e a torna instável, a perturba, a torna irascível. Não tenho ideia, ela não gosta de falar dos seus problemas. Pergunto-me se passará por aqui ainda esta manhã, antes de ir para o trabalho. Para tomar um café. Ou para ver se eu cá que estou. Às vezes, antes de ela ir para o emprego, encontrávamo-nos aqui para conversar um pouco. Ela telefonava-me antes e eu vinha ter com ela. Era como se me estivesse a oferecer um presente. Eu percebia, mas aceitava. Era de facto um presente, eu gostava de a ver. Mas eu, não lhe estava a dar nada? Ela não entendia que também estava a receber? Esses encontros duraram pouco tempo. Um dia disse-lhe que vir ali só para falar dez minutos com ela me parecia um pouco exagerado. Nunca mais me telefonou a dizer-me que fosse ter com ela. Que feitio. Com ela, na verdade, não houve continuidade em nada. Hoje não vem provavelmente porque pensa que eu estou cá e não lhe apetece ver-me, eu irrito-a. Ontem veio porque eu a tinha criticado na véspera. Quando eu a critico, fica logo inquieta, quer saber porquê, quer saber tudo, quer que eu me explique. Nunca abusei desse poder. Devia ter abusado, servir-me dele para tentar esclarecer o mistério, para a inquietar e a fazer depender de mim. Sou demasiado preguiçoso. Ou ninguém me merece consideração que justifique o esforço. É possível.






Ela escreveu uma história ridícula sobre uma rapariga que ama um homem dos seus trinta e tal, bela figura, desportivo, rico. A heroína da história, que viaja com o galã aventureiro em primeira classe nos aviões, que anda com ele de hotel de luxo em hotel de luxo, sempre a comer bem e a beber vinhos caros nos melhores restaurantes, fica muito deprimida quando entende que a relação não terá futuro. Pudera, eu também ficava. Mandou-me a história por email e eu à medida que ia lendo fui ficando surpreendido. Julgava-a mais lúcida, mais capaz de falar de amor com perspicácia e profundidade. Não é ela que me faz crer, sem realmente se explicar, que tem sofrido muito por causa de um homem? Fiquei desapontado, achei-me estúpido por estar a dar-lhe tanta atenção. E ontem não me limitei a criticá-la suavemente. Ontem fui duro com ela, chamei-lhe ingénua e falsa ingénua, ri-me dos mitos infantis que lhe enchem o cérebro de tontices românticas. E concluí: como é que é possível que tu, uma pessoa com alguma maturidade, inteligente, séria, que conheces as realidades mais duras da vida, percas o teu tempo a escrever uma história para revistas femininas de adolescentes retardadas? Ela não gostou de me ouvir. Deve ter sentido que eu a estava a tratar com paternalismo. Se pensas que era o dinheiro ou o luxo que interessavam à rapariga nessa relação estás enganado, nem ela nem eu somos assim. Havia muitas outras coisas, a ilusão e o desengano, por exemplo. Disse isto com ar meio distante, levantou-se e foi-se embora. Zangada, evidentemente. A história que ela diz que escreveu e que me mandou até pode ter sido inventada para encobrir outras coisas, não sei quais. Mas de que adianta querer perceber?






A bruma das dúvidas que me atormentam não a incomoda. O corte de relações desta vez pode ser definitivo. Tenho pena. Mas que posso fazer? Nada. Ela não fala, não quer falar nem ouvir. E eu, sinceramente, estou farto de esperar, de querer entender. Estou farto dela. Há momentos em que já não a suporto. Pensar nela deixa-me frustrado e irritado. Comecei a achá-la arrogante. Assim não vais longe. Digo isto, penso tudo isto, mas continuo preocupado com ela. Ela sofre. Se ela pelo menos tivesse a humildade e a gentileza de me explicar as razões do seu sofrimento, talvez eu a pudesse ajudar a libertar-se de tanta angústia. Se ela confiasse na minha amizade e quisesse ouvir-me, talvez eu a ajudasse a pôr termo a tantas lágrimas.






A mente humana é um instrumento de auto-tortura temível. A educação que recebemos torna-nos cegos quando se trata de entender o nosso próprio comportamento. As pessoas deste país são educadas para desconfiar de toda a gente, aprendem a comportar-se em cada situação de maneira rigorosa, obedecem a códigos de conduta inflexíveis que a gente desconhece. Acho-os insuportáveis. São uns escravos, vivem num Guantanamo mental há muito tempo, não entendem nada de nada. Capitalismo selvagem, assassino. Estão robotizados, o problema é grave. Ela, que eu imaginei humana, afinal não era diferente das pessoas que eu já conhecia. Fiquei tão triste quando cheguei a esta conclusão. A barreira da educação que cada um de nós recebeu era intransponível e tornava impossível a comunicação e o entendimento.






Podemos alguma coisa pelos outros? E eles, podem alguma coisa por nós? E nós, podemos alguma coisa por nós mesmos? Nem tentei responder a tais perguntas.










O sol vai rompendo, o relógio vai avançando. Está a aquecer, devia ir a casa deixar o casaco e vestir uma camisola de algodão. Creio que é o que vou fazer. Ainda tenho bastante tempo. Se ela entretanto aparecer por aqui e eu não estiver, paciência. Que me telefone, se lhe apetecer. Que fique zangada e deixe de dar sinal de vida se quiser, quero lá saber. Gosto dela, podíamos ser bons amigos, talvez o amor fosse possível entre nós, ambos acreditámos nisso no início. Mas com ela nada é fácil. Talvez comigo também nada seja fácil, sei lá. Milagres, porém, não faço, não me ensinaram a fazê-los.






Uma vez pensei na possibilidade de ela ter outra pessoa na vida dela: um amante, qualquer coisa assim, clandestina.. Não a conhecendo há muito tempo nem o suficiente, tudo era possível, porque não? A cama dela, no estúdio onde ela vive, é larga, parece confortável. Antes de me conhecer, se tinha amantes, trazia-os para casa e dormia nela com eles? Só de pensar nisso e de me interrogar eu ficava danado. Um dia passou-me pela cabeça que ela tinha uma câmara de vídeo escondida em qualquer lado e que a certas horas se ligava à internet e se punha em biquíni a mostrar as pernas, os seios, a barriga, a responder aos comentários dos tarados que se aborrecem sozinhos em casa. Por isso não tinha tempo para se encontrar comigo nem vontade de muita conversa. Provavelmente, pensei eu, escreve textos de um erotismo comercial para empresas de pornografia. Talvez a história que ela me enviou seja apenas a parte cor de rosa de uma ficção indecente que ela está a escrever, quem sabe? No fundo não estava nada convencido de que ela acredite a sério na história do homem belo e rico que podia ou devia casar com a menina bonita e pobre. Balelas. Mas o enigma da sua existência e da nossa relação adensava-se.






Não sei, sinceramente não sei o que pensar. As pessoas são muito complicadas, dificultam-nos a vida. Mas viver só não é uma solução. Encontrar uma mulher de confiança que saiba o que quer e o que está a fazer, que tenha tanto empenho e gosto em estar connosco como nós com ela, que não nos aborreça nem se aborreça connosco não é fácil. O amor é capaz de ser uma fantasia que a gente cria na nossa cabeça, uma religião dos nossos antepassados em que nós, por hábito, vício ou necessidade, confiamos sem reflectir. Os livros e os filmes ajudam-nos a acreditar nesse mito antigo e nós deixamos enraizar-se em nós a crença. Todas as nossas emoções, esperanças, inquietações, em vez de andar à solta por aí, perdidas e sem rumo, concentram-se na imaginação do amor.






O amor é como uma pirâmide luminosa no centro de inúmeros labirintos, dos caminhos confusos: guia-nos, põe ordem na desordem, orienta-nos, faz com que tudo tenha algum sentido. Se não existisse o amor provavelmente nem sabíamos que era possível escapar à insignificância e à perdição.






É quase meio-dia. Se ela não vier dentro de dez minutos, sei que já não vem. Eu vou-me embora. Vou a casa mudar de roupa, está a ficar calor. O dia está bonito. Hoje é quarta-feira. Quando voltar da biblioteca as minhas obrigações desta semana estão cumpridas, posso ficar em casa se me apetecer. O que, em vez de me alegrar, me aterroriza. Que estou aqui a fazer? Não podia estar noutro sítio, noutro país ou noutro continente, a sentir-me mais vivo, mais tranquilo, mais feliz? Não é que eu acredite na existência do paraíso, mas já entendi que nesta terra nunca escaparei a uma inquietação quase permanente nem ao aborrecimento. Capitalismo cruel. Tenho de pensar a sério em ir-me embora, preciso de ser duro comigo e de tomar uma decisão. Se ela, a menina mimada, acabar por entender o género de pessoa que eu sou, a significação das minhas palavras e das minhas atitudes, e quiser ir ter comigo, nem que seja apenas para visitar-me, será bem-vinda. Podemos ser amigos. Amantes não sei, mas não é importante sabê-lo neste momento, cada coisa em seu tempo.






O meu telefone tocou. Brrrrr. É ela. Assusto-me. Atendo, não atendo? Resisto à tentação, desta vez não atendo, não me apetece falar com ela, discutir. Ela precisa de compreender que eu não sou nenhum boneco de palha sempre à sua disposição. Também tenho vida própria e amor-próprio, sabias? Se não sabias, agora ficas a saber. As pessoas, quando se lhes dá tudo, ainda querem mais, abusam de nós. Mas se as tratamos mal, se as tratamos com o que elas consideram ser falta de consideração, irritam-se e preocupam-se, começam a fazer o possível por reconquistar os nossos sorrisos, os nossos olhares, a nossa atenção. Pois desta vez vais ter de esperar, minha querida, disse eu em voz alta.


- Porque não atendes o telefone?


Ela estava ali, a quatro ou cinco metros de mim, a ver-me, e eu não me apercebi disso. Quando a vi aproximar-se era tarde de mais. Os olhos dela faiscavam. Desculpei-me como pude:


- O telefone tocou? Tem piada, não ouvi.


- Não ouviste? Mas eu, que estava mais longe, acho que ouvi. Sabes que mais? Estou farta. Vou-me embora.






Afastou-se, meteu-se no carro, deu a curva a acelerar, desapareceu. Fiquei indeciso, provavelmente preocupado, sem saber o que fazer nem o que pensar. Para quê mais confusão, meu Deus? Não bastava a que já havia? Levantei-me, deixei o café, meti-me no carro e fui para a biblioteca procurar uns livros. Estou a escrever um estudo sobre “a força de vontade em estados depressivos” e ainda necessito de fazer umas investigações. Ela provavelmente foi pôr-se em biquíni diante da câmara que está ligada à internet. Who cares?

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