Monday, April 2, 2012

Mozart ou Schumann?



Herbert James Draper, Tristan and Isolde

Era um tipo curioso. Ou estava a comportar-se de maneira que ele próprio achou curiosa. Amara uma mulher que o aborrecia e irritava, que ele achava superficial e meio doida. Separaram-se. Quando voltou a casa depois de uma viagem pelo estrangeiro, porém, achou a sala e os quartos excessivamente vazios. Tudo lhe lembrava a desaparecida, desde o ridículo tapete no quarto ao seu lugar por ocupar à mesa.

Sentou-se no sofá onde ela costumava adormecer invariavelmente a meio de um filme e apeteceu-lhe a consolação da música. Pouco depois estava sentado no chão em frente das estantes a escolher um CD. Hesitava: Così fan tute ou Dictherliebe opus 48? O amor é uma farsa ou uma tragédia? Decidiu-se por Schumann, isto é, pela tragédia, e pôs o CD a tocar. Tinha sede, foi buscar um copo de água. Sentou-se de novo no sofá, acendeu um cigarro. A dado momento leu, no livrinho que acompanhava o disco, o que Heine escreveu e Schumann também conheceu:

When I hear the sound of a song
that once my beloved sang,
my bosom is near to bursting
with the savage strain of sorrow.
A dark longing drives me
up to the woody heigths;
there in tears is released
my overwhelming woe. 


Deixou-se impregnar pela música e começou a sentir os seus próprios sentimentos.

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