Thursday, April 5, 2012

Regresso à casa da montanha


 Courbet

A casa lá no cimo isolada longe de tudo quantas vezes sonhei com ela quantas vezes tive saudades daquela solidão nós atravessámos o Jotunheim eu e ela e o miúdo viam-se ao longe as montanhas cobertas de neve natureza selvagem arbustos longa planície aliás planalto e eu senti-me leve feliz naquela pureza tranquilizadora nós saímos do carro o ar frio acariciou-nos a pele do rosto e das mãos tirámos algumas fotografias creio que me sentia protegido ao abrigo de não sei que ameaças e da própria ideia da morte sem medo espantado cheio de respeito e de admiração naquele silêncio que envolvia tudo e nos dava uma vaga ideia do que pode ser o infinito uma vaga ideia da grandeza impressionante do universo tamanha solidão tamanho silêncio incutiam respeito tinham qualquer coisa de sagrado de divino depois finalmente por caminhos e estradas chegámos à casa de madeira eles estavam à nossa espera o pai a mãe as duas filhas ainda tenho as fotografias desses dias mas agora não quero revê-las mais tarde depois agora basta-me recordar o rosto das meninas as cores dos casacos e das botas de borracha laranja amarelo as cores dos arbustos e das folhas das árvores era no Outono ou no Inverno as miúdas depois disso cresceram muito é evidente mas já então era impossível não amá-las uma era morena a outra era loira na cidade na casa da cidade quando eu passava elas paravam de brincar ou de andar de bicicleta e olhavam para mim atentas curiosas quando eu saía de casa ou voltava a casa sorriam-me nunca mais as esqueci.

Os pais bom disso não vou falar não quero prefiro pensar que naquelas vésperas de Natal há alguns anos atrás não houve nenhum acidente brutal de automóvel na estrada que levava à casa na montanha ou em todo o caso que não percebi bem o que me disseram a esse respeito prefiro pensar que naquela casa grande vermelha da cidade onde eu também vivi ao lado da universidade eles continuam a ler a almoçar a desenhar a rir a tocar piano a fazer pão a recortar e colar fotografias a passar serões tranquilos na sala grande da casa naquele calor quando lá fora se via a neve e estava um frio de rachar posso imaginar se quiser que estou lá ainda a fazer-lhes companhia a beber com eles aquele vinho surpreendente feito de frutinhas selvagens do Norte a olhar pela janela a neve nas árvores vinho que nos deixava bem dispostos e depois fazemos enrolamos cigarros com o tabaco que tiramos das bolsinhas de plástico azuis ou amarelas depois conversamos fumamos rimos e ninguém nesse tempo pensa no cemitério ali bem perto a uns cinquenta metros nas traseiras da casa cemitério onde um dia mais tarde não não me recordo sequer de alguma vez termos falado nisso e agora mas pronto de qualquer modo qual é a diferença entre a vida e a morte quando se vive longe e não se vêem regularmente as pessoas a diferença é pequena é ínfima é uma questão quase só de imaginação se eu estiver distraído a deixar correr a memória o espírito acaba por não distinguir entre o que existe e o que já existiu entre o que vê e o que recorda os mortos estão ainda vivos bem vivos falam e ouvem repetem os gestos os sorrisos as palavras tão vivos como os vivos que estão longe de nós e que também não vemos ou só raramente vemos portanto não vou falar nisso não vale a pena.

Eu estava a tentar falar na casa vermelha de madeira longe de tudo isolada na montanha antiga casa de lavradores de uma quinta passei lá uns dias e nunca mais me esqueci senti pensei logo hei-de voltar tenho de voltar mas nunca voltei ora ontem ou hoje pensei está a chegar a hora de regressar àquela solidão àquela pureza como me prometi a mim mesmo tenho de pensar nisso seriamente um mês de absoluto isolamento longe de toda a gente separado do mundo do ruído das cidades da confusão das relações com as pessoas fazia-me bem não sei se sou capaz de passar tantos dias duas três quatro semanas sem falar e sem ouvir ninguém concentrado no mistério que certamente se esconde em mim nas profundezas do ser lugar impossível de localizar de identificar de visualizar de tocar e talvez no fim se eu for capaz de suportar a solidão a mais absoluta a mais árdua a mais terrível solidão durante pelo menos um mês talvez no fim se eu conseguir esquecer-me de tudo o que sei e de preocupar-me com tudo o que não sei se o meu corpo se habituar a ser apenas um corpo e a sentir-se uma espécie de árvore ou arbusto ou animal cheio de saúde igual semelhante da família de tudo o que na natureza o cerca talvez no fim se eu tiver a coragem a força necessárias para ficar se eu não desistir se não me der por vencido talvez então eu volte purificado capaz de amar e de acreditar e até de esquecer ou de perdoar quem sabe se capaz também de entender sem esforço que tudo o que nos acontece tinha por força de acontecer e que se alguém nos amou foi porque tínhamos de ser amados e que se alguém nos magoou foi porque tínhamos de ser magoados.

Se alguém nos magoou provavelmente fomos nós que preparámos o terreno para que nos magoassem e então aconteceu o que tinha de acontecer é uma possibilidade uma hipótese apenas nada mais do que isso não é uma afirmação segura embora nos possam atribuir responsabilidades simplesmente porque deixámos as coisas irem andando de tal maneira desprendidas de nós que finalmente era normal alguém esquecer-se de que nós existíamos e pensar que não valia a pena preocupar-se muito em respeitar-nos em ter em conta os nossos sentimentos o nosso ponto de vista.

Portanto se a culpa é nossa se nós fomos excessivamente generosos incompreensivelmente tolerantes superiormente desprendidos ou desinteressados se a culpa é nossa então foi bem feito que a dado momento nos tivessem esquecido e castigado já devíamos saber que o homem é o lobo do homem só que apesar do que fica dito aí atrás eu sei que agi de acordo com os meus princípios de acordo com regras que me parecem correctas e se não me compreenderam ou se me interpretaram mal que culpa é que eu tenho eu não posso ser culpado de tudo o que acontece recuso-me a isso se não compreenderam os meus estados de espírito nem as minhas palavras se os interpretaram erradamente pode ter sido por conveniência pessoal dava-lhes jeito ter uma desculpa e se usaram o que eu nem cheguei a dizer como álibi para justificar o desejo a curiosidade o erro a infâmia o desvio o crime que culpa é que eu tenho que culpa é que me podem com justiça atribuir no desenrolar dessa história em que o carácter dos intervenientes desempenhou um papel preponderante respondam-me por favor ou então calem-se deixem de me acusar além disso quero que fique claro para que não haja equívocos que não acho nada que o homem tenha de ser o lobo do homem que não acho nada que tenha sido bem feito e digo-o meio desprendido dos sentimentos quase desinteressado dos episódios desse período da minha vida em que por pura cegueira me pus a desperdiçar os prazeres a esbanjar o amor a atolar-me num sono ou num vício difíceis de entender.

Quem sabe talvez depois de me isolar na montanha e de não ver senão arbustos árvores a terra os animais as ovelhas as vacas as renas durante um mês quem sabe talvez mesmo sem mudar de opinião naquele contacto doloroso com o enigma da minha vida interior impressionado contaminado todos os dias educado severamente pela grandiosidade monstruosa e admirável da natureza selvagem eu deixe definitivamente de importar-me com tudo o que não me diz directamente respeito e talvez então eu regresse transformado a pensar que as pessoas cada um de nós têm temos o direito de fazer o que quiserem da vida delas de fazermos o que quisermos mesmo de cuspir sem razão na cara de outras pessoas se nos apetecer claro depois sofremos as consequências mas é o destino delas é o nosso destino tudo se paga et tant pis se aos nossos olhos o destino delas e até o nosso parece ser um destino medíocre construído em cima da falsidade da mentira de um desespero inexplicável ou eventualmente dominado por um secreto inconsciente doloroso desejo infantil de vingança.

Tant pis se aos nossos olhos a opinião que alguém tem sobre o seu próprio destino nos parece de uma irrealidade atroz e devastadora um destino que nós vemos no fundo nascido inteiramente da inveja da rivalidade da luta pela cadeira de oiro do príncipe ou da princesa que sobre as bonecas os bonecos de pano e de plástico os soldadinhos de chumbo e sobre as outras miúdas e miúdos da rua ou da aldeia quer ter o poder maligno da destruição o poder de decidir e de oprimir destino portanto inconscientemente construído em cima de uma inveja de uma maldade crueldade ancestrais espécie de pecado original pecado herdado de que ninguém tem culpa realmente.

Talvez esse destino alheio e o nosso se assemelhem então a uma opereta vulgar uma opereta de província com inúmeras personagens feitas de papelão e de velhos farrapos um espectáculo aldeão ingénuo e no entanto cheio de simbolismos o bem o mal a virtude o vício a punição a rebelião a dissimulação a desfaçatez o pai a mãe a vingança o ódio a avó o avô a punição o perdão o irmão a prima a cobiça a crueldade espectáculo opereta na qual também representámos um papel espectáculo equívoco infantil ao qual por engano por ingenuidade por pura estupidez ou por prazer difícil de justificar durante muito tempo estivemos ligados sem nunca termos entendido ou querido entender o que se passava exactamente nem o papel que estávamos a representar mas se é assim e se a nossa cegueira nos fez participar em episódios que agora preferimos esquecer paciência já sabíamos devíamos por experiência saber que não se pode voltar atrás para corrigir portanto era necessário era ter corrigido o erro enquanto era tempo ter recusado entrar no palco onde tudo a mentira a ilusão o desejo o rir o chorar se ia monotonamente infantilmente enganadoramente passando devíamos era ter descoberto antes enquanto era tempo que estávamos no drama errado na comédia ou tragicomédia errada e que nada do que acontece acontece sem ter consequências.

Nada é tão simples como eu pareço pensá-lo e dizê-lo eu sei claro que eu sei isso à medida que escrevia outras imagens outros pensamentos outras recordações outras feridas algumas alegrias que não registei a que não tive tempo de dar a devida importância iam surgindo juntamente com outras dúvidas e com o remorso da minha eventual incapacidade de amar o remorso da minha insistência em esperar aquilo que não se pode nem deve esperar terei de ter em conta tudo isso se quiser ser rigoroso se não quiser esconder deliberadamente nada a mim mesmo e dessa maneira talvez consiga explicar o que há a explicar compreender o que há a compreender sem ser injusto com ninguém nem comigo próprio.

Como antecipar porém como falar do que ainda não posso saber do que não vivi do que não sei ainda se acabarei por fazer do que só na solidão das montanhas do Norte se eu tiver a coragem necessária para partir se eu tiver a força interior necessária para resistir ao tédio para não me deixar esmagar por uma solidão absoluta acabarei eventualmente por descobrir acabarei por pensar por sentir por concluir?

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