Sunday, June 17, 2012

O amor dos poetas




Uma vez, já não sei quando, li um poema de
amor de um poeta português. Era o poema de
um rapaz de agora, com as qualidades dos rapazes
de agora que frequentaram a universidade e tiraram
um curso de letras. Ele escrevia nos jornais umas coisas
sobre a poesia dos outros poetas. Eu achava-lhe piada:
tudo o que ele escrevia nascia de uma profunda irritação,
coisa infantil e que inspirava ternura. Entendi o que ele
queria: queria que todos escrevessem como ele e os seus
amigos e mestres poéticos (outros rapazes, mais velhos,
que eu também tinha  conhecido na universidade e de que
me lembrava vagamente). No poema de amor que eu li um
rapaz beijava uma rapariga. E enquanto a beijava e as veias
da boca lhe estremeciam de desejo o jovem amante pensava
em mares distantes cheios de perigos, pensava em temíveis
corsários. Não percebi por que razão beijar a rapariga
levava o rapaz apaixonado a pensar em corsários, em
cenas violentas com espadas e canhões. Mas é verdade
que nenhum amor, nem mesmo o amor de um poeta
português perdido em Lisboa nos seus pensamentos
confusos, é uma aventura sem perigo. O poeta, expulso de
si mesmo e da realidade que o rodeava, viu corsários no
pacífico Tejo, que nem sequer, como se sabe, é o mar ainda
- porque o mar, para quem não tenha o espírito perturbado
pelo amor, só começa lá mais abaixo. Já não me lembro
de outros pormenores do poema. Mas da cena do beijo, 
do fantasma de Errol Flynn e dos corsários em mares 
distantes e cheios de perigos nunca me esqueci. Se a gente 
quiser ( e mesmo quando não queremos) tudo se relaciona 
com tudo: basta ter alguma cultura literária, imaginação, 
capacidade de juntar palavras de coisas que em princípio 
não costumam aparecer juntas. Uma metáfora não passa 
disso, afinal. E a dizer a verdade nem sequer é preciso 
ter frequentado  a universidade e ter tirado um curso de 
letras para perceber isso. Os poetas e os críticos de poesia 
são muitas vezes gente alucinada.  Vêem o que ninguém vê, 
pensam o que ninguém pensa, dizem coisas que não têm 
muito sentido. E são teimosos e irascíveis: querem que todos 
escrevam poemas como eles os escrevem e que pensem acerca 
da vida aquilo que eles pensam. Nalguns casos o sentido 
enigmático da comparação ou da metáfora revela-se depois 
e é esplendoroso; noutros nunca se revela ou quando se revela 
a gente percebe que o poema foi apenas um momento de desvario 
ou estupidez que aconteceu ao aspirante a poeta. Vem tudo a dar 
no mesmo. Só as palavras dos sábios verdadeiros se salvam do 
esquecimento imediato. E os sábios e os génios são, como se sabe,
apenas uma excepção na monotonia da maior parte das existências. 
Mas como dizia Celan:  aconcheguem as palavras do poeta no caixão 
ao lado do seu coração quando ele morrer; ele só as disse porque
elas lhe eram  necessárias para suportar a existência. O corpo
dos corsários era lançado ao mar ou caía nele varado pelas espadas
ou pelas balas. O destino do poeta é menos heróico, aparentemente:
há-de morrer na cama, a recitar provavelmente o último verso do
poema que escreveu quando recordava a rapariga que uma noite,
à beira do Tejo, amou como nunca tinha amado ninguém.

No comments: