Tuesday, October 2, 2012

A grande cidade


A grande cidade, com a confusão das suas ruas e avenidas, assemelhava-se a uma longa frase, talvez a um longo poema, talvez a um romance. Muita coisa a ler, a organizar, a interpretar. As luzes e as cores, os rostos das pessoas e os automóveis, as árvores e o rio, tudo eram fragmentos da grande totalidade à espera de ser habitada e desvendada na epopeia cheia de sentido. Na avidez e inquietação da leitura havia de  construir-se a narrativa pessoal.

Rapazes e raparigas, inflamados pela ambição de ter um destino dominado pelo ardor, diziam-se uns aos outros nos bares entre duas cervejas ou duas tequilas os episódios da sua perplexidade. A excitação da descoberta e da posse fazia brilhar nos seus olhos meio ébrios e ávidos a tentação de uma grande perdição, de uma felicidade estrondosa e sem nome conhecido. Às vezes falavam de amor.

As manhãs nasciam, serenas. Pouco a pouco a cidade ia envelhecendo. Adolescente à tarde, ameaçada à noite pelo delírio que arrasta aquele que entrevê o fim próximo para a perdição de si mesmo. É esse o nosso destino: queimam-nos o rosto e os olhos o fogo do pressentimento e a atracção pelo abismo. Como fugir-lhe?


(J. E. Soice)

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