Tuesday, October 2, 2012

Algumas pessoas, algumas cidades


Algumas pessoas, algumas cidades
atravessam a nossa existência; e da
sua travessia fica-nos no espírito, como
se ele fosse um corpo, a confusa e nítida
recordação. O próprio corpo, atento, sente
na sua carne, como se ela fosse espírito,
passar as emoções, elas circulam nele
como num rio que abre o seu peito de
água a quem ousa mergulhar na sua
imprevisível vontade de abraçar. As 
praças, entre as paredes com janelas
das velhas casas, abrem a sua intimidade
aos passos ávidos e ao olhar irreverente
do curioso caminhante. Ele não tem pressa,
os seus passos não perseguem um destino
certo, nenhum lugar ou amor espera por ele.

Pedra amarela polida pelo tempo, pelo sol
e pela chuva. Nela a memória dos homens
e mulheres, das crianças que já morreram
ou nos observam pelos vidros, por detrás
das cortinas brancas. Somos habitados. O
viajante é habitado por emoções e sentimentos,
ele sorri ou observa, circunspecto, sem ele o ter
decidido assaltam-no talvez as perguntas ou
inquietam-no não se sabe que conclusões.
Há as ruas e as árvores que a ladeiam com
a sua sombra. Nos cafés riem raparigas
suavemente, rapazes bebem cerveja e falam.
Nós passamos, quem deu pela nossa existência?
Mas os ruídos e as cores da tarde ou da noite,
os movimentos ou a imobilidade dos braços, os
olhares daqueles que nos cafés e nas ruas com
ancestrais fontes eram a vida, eram o enigma,
eram a prova da nossa própria existência, são
agora, na cidade e nas suas ruas, nas suas casas,
a nossa recordação da pessoa que um dia fomos.
E quem éramos, realmente? Sabemos? Não se
pode prever que papel hão-de desempenhar na
nossa existência as casas e os rostos, os cheiros
e a música que de todos os lados vêm romper
o lago de areia lisa do silêncio. E  das paixões
que, invisíveis, iam agitando os corações e os
espíritos em intrigas que nos eram desconhecidas
nós nada vimos e nunca poderemos falar. Nós
passámos e as cidades atravessaram o nosso
destino como se ele fosse um corpo. Como a
paixão de uma ou de muitas mulheres se
intrometeu no nosso destino para nos ensinar
o que é o amor e nos deixar entrever o que será
a morte, as cidades atravessaram-nos. Porque o
amor com que nós sonhamos, aquele de que se
alimentava a nossa imaginação, era apenas uma
ideia. Coisa livresca, afinal. O que era o amor
nós aprendemo-lo com aquelas que nos amaram.
Tê-las conhecido e ter sido amado por elas fez-nos
talvez lamentar os exageros despropositados da 
alegria e da dor. E sem razão rimos, outras vezes
apeteceu-nos chorar. No seu ventre onde fermenta
a escuridão, a paixão guarda, escondida dos olhares
que não a sabem ver e ainda não a poderiam
compreender, a tortura do ciúme e a incapacidade  
de alguma vez chegar. Maldição é viajar sem destino
que seja certo? Primeiro elas apunhalaram-nos com
o calor húmido da sua excitação imerecida e sem
limites. E depois, a frio, talvez sem premeditação,
arrancaram-nos do coração e do espírito o espinho
maligno da ilusão, o mal-entendido da esperança.
E um dia finalmente ficámos a saber o que é a
fidelidade e o que é a traição. Mestra da sabedoria,
a traição é uma semente que germinou na terra dos
sentimentos mais puros. Viveu escondida nos sorrisos
e no apetite devorador e insensato dos desejos
veementes. Mas a nós foi-nos revelado o segredo.

Nada é o que parecia ser. A aprendizagem nunca
terá fim. E quem tem culpa de não poder amar
duradoiramente? Os anos vão passando e nós não
queremos conformar-nos com a degradação do
projecto e do ideal. Mas morrer passa tão
despercebido. A folha caiu da árvore e o céu não
escureceu, irritado ou surpreendido, nenhum
soluço ou grito de revolta ou dor rompeu a
serenidade do fim da tarde na cidade que
adormecia no seu silêncio. Tendo recebido a
dádiva da revelação, nós entendemos que a nossa
aprendizagem do amor e da morte não ficará
imperfeita. Nem se poderá dizer que ficou incompleta
a nossa educação. Ver de perto a fronteira nebulosa
que separa a verdade da mentira, o amor do desamor,
a devoção do desprezo, transformou-nos. A ser
atravessados pelas cidades e pelo amor das
mulheres, íamos ficando adultos. E uma noite,
finalmente, perplexos no meio da avenida
da cidade desconhecida, noutro país, noutro
continente, pudemos gritar: sou um  homem enfim,
já sei que tudo me pode acontecer. Entendemos que
o amor tal como o tínhamos imaginado não existe
verdadeiramente. Nada é como nos ensinaram ou
nós o quisemos aprender. Penetrar nos atalhos
tortuosos da nossa humanidade é uma ocupação
interminável. Somos o bem e o mal, generosos
no amor e na distracção, heróis e cobardes.
E na carne do espírito habituamo-nos à decepção
e a não esperar. É como aprender a falar. Em cada
episódio da nossa existência restaura-se a ingénita
ignorância. O sentido das palavras deixou de estar
preso à terra das origens, às raízes das árvores no país
da infância. A certeza e a dúvida não passam de acidentes
no caminho que leva à ignorância, essa sabedoria. E
desvendar é uma ocupação que nunca terá fim. Mas
o mistério existe, existirá o enigma? A tudo o que
nos acontece nós chamamos o nosso destino.
Colamos as palavras e as imagens recortados no 
filme inacabado, recordações do dia ou da noite em
sucessivas estações, queremos escapar à confusão
e à desordem que sempre nos ameaçam. Para que não
fiquem perdidos na imensidão do caos os episódios
da história, nós procuramos ou inventamos o todo
em que se inserem as partes. As ruas da cidade,
os seus cafés, as árvores da avenida e os seus
transeuntes ressurgem do esquecimento, cheias de
alma. As palavras daquela que nós amámos, os seus
gestos e as expressões do seu rosto podem permanecer
para sempre incompreensíveis. Nós mesmos já não
sabemos  se é acertado chamar amor ao que
sentimos nem como interpretar as  frases que
nos pareceu que ouvimos. Mas o que aconteceu,
o que nós pensámos do que aconteceu, o que nós
vimos e ouvimos não pode ser apagado da memória
nem perde a sua realidade. O corpo e o espírito foram
atravessados pelo movimento da vida. Pelas sombras
e pela luz. Pelo sussurro do vento nas folhas das árvores,
pelo cantar da água discreta nas fontes e nos pequenos
rios. Pela inocência. E tantas vezes  renunciámos ao amor.
O que não aconteceu também faz parte da história. 
que é o remorso? Porque é impossível esquecer?  



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