Monday, November 18, 2013

“My life is a mess”


I’m not sure you know... I was impressed you know but love is serious stuff and I’m not sure... anyway... I’m lost it’s too early I need to take a break my life is a mess... A frase veio lá de detrás eu ia sentado no comboio o Porto ia-se afastando de nós o Alfa deslizava silenciosamente como se escorregasse num mar de ar tranquilo eu olhava pela janela a paisagem distraidamente pensei eu também não sei nada eu também podia dizer que me sinto perdido mas não o digo calo-me para quê falar não vale a pena.

Olhei para trás era um tipo loiro a conversar com uma rapariga loira deviam ser ingleses deviam estar de férias em Portugal talvez fossem irmãos o rapaz era gordo e grande a rapariga era magra e tinha os cabelos castanhos aos caracóis eu abri um livro e preparei-me para ler um pouco a viagem seria relativamente curta em breve chegaria a Lisboa onde me esperavam os meus amigos mas não consegui concentrar-me no livro que tinha aberto fiquei a pensar no que o rapaz tinha dito.

O amor é uma coisa muito séria de facto é ou antes depende nunca se pode saber depende do nosso estado de espírito depende da outra pessoa depende de tanta coisa às vezes o amor não é nada sério eu sei parece uma brincadeira ou será que o amor é sempre uma brincadeira ah ah ah não não não pode ser pensava eu o amor é a única coisa que ainda nos resta nisso pelo menos tens de acreditar ó idiota ó imbecil.

Ou será que o amor não é nunca uma brincadeira embora a gente possa acreditar que sim pensei eu para me contradizer para ver a questão de múltiplas perspectivas. E depois pagamos o preço nada nos é dado de borla o comboio deslizando suavemente como num sonho de infância um sonho dos bons claro não dos maus não um pesadelo e o rosto da rapariga que eu tinha visto no restaurante à hora do almoço não me saía do espírito era um rosto grave mas não triste de pessoa que parecia estar à vontade dentro da vida e saber o que é importante e o que não conta parvoíces pensei eu lá estás tu a delirar como é que sabes como é que concluíste tanta coisa sem ter elementos suficientes para isso a tua necessidade de amor é ridícula por isso cais em tentações facilmente por isso facilmente levianamente te pões a imaginar coisas literário meio doido é o que tu és. O rapaz loiro o gordinho tem razão não se deve brincar com coisas sérias não se podem correr riscos desses é perigoso e então dei uma gargalhada baixinho ri-me de mim mesmo mas não deixava de estar de acordo com o rapaz.

A rapariga estava sentada numa mesa ao lado da minha no restaurante e tinha-me sorrido depois tinha-me perguntado se eu era do Porto e eu disse que não e ela calara-se e o homem de barba mais velho que estava com ela fumava e sorrira também provavelmente é o pai pensei eu. E quando eles se tinham ido embora tinham dito então boa tarde adeus boa viagem e eu segui-os com o olhar e a rapariga virou-se para trás e sorriu outra vez e eu já não sabia onde meter-me nem que fazer. Não havia nada a fazer evidentemente mas eu preferia não ser tantas vezes confrontado com situações semelhantes que não me vejam que não dêem por mim e tudo será mais fácil pensei eu. E agora sentado confortavelmente no comboio pensava ainda na rapariga lembrava-me dos seus olhos do seu sorriso um pouco melancólico não era nenhuma criança já nem adolescente era bonita parecia uma pessoa suave com alguma ou muita maturidade capaz de entender muita coisa mas quem sabe a gente não sabe não é eu estava provavelmente a construir já mais uma ficção para me entreter. A viagem é curta não necessitas de inventar passatempos disse-me eu ralhando-me a mim mesmo.

Uma pausa sim eu também precisava de uma pausa na confusão em que se transformara a minha vida separações viagens conflitos desilusões malentendidos ingratidões crueldades não valia a pena eu querer estar sempre em campo eu estar sempre em jogo podia de vez em quando ser apenas um dos jogadores que ficavam sentados no banco de suplentes. Ri-me da comparação e então o comboio parou em Coimbra eu levantei-me e fui à casa de banho o comboio logo a seguir recomeçou a viagem e eu voltei para o meu lugar a frase em inglês e a memória da rapariga que eu conhecera ao almoço no restaurante não me deixavam em paz misturavam-se confundiam-se no meu espírito meio adormecido agora e eu preocupei-me com a minha fragilidade embora não me sentisse não me considerasse minimamente uma pessoa fraca ou susceptível de se deixar enredar seriamente em histórias absurdas.

Recordei-me da história de Knut Hamsun The Queen of Sheba pensei naquele desvairado que ia encontrar-se com uma mulher e encontrou outra uma desconhecida à noite ao jantar numa pensão e no dia seguinte em vez de ir aonde ia em vez de ir ter com a mulher que o esperava meteu-se no comboio atrás da desconhecida que acabara de encontrar. O que é o amor então e o que é que nos leva a acreditar numa pessoa que diz que nos ama o que é que nos leva a imaginar que uma pessoa que acabámos de conhecer podia ser aquela que sempre procurámos e nunca encontrámos antes e o que é que nos leva a deixar de ir aonde vamos para ir a outro sítio. O que é que nos leva a esquecer uma pessoa para prestar atenção a outra e eu não sabia responder a tantas perguntas não tinha teorias seguras nem profundas sobre o assunto eu não sabia nada de nada só sabia que estava sozinho e que não me apetecia muito continuar a viver assim mas também sabia que deixar-se levar de novo deixar-se enganar de novo por idealismos românticos era absurdo o romantismo é uma das nossas frágeis ilusórias tábuas de salvação no deserto da vida é certo sabemos isso mas basta de infantilidades temos de proteger-nos dos sentimentos devemos afastar-nos dos sentimentos como das tempestades já basta de erros de confusões de esperanças frustradas.

My life is a mess love is serious stuff I was very impressed but you know I am lost in my life right now a frase não me abandonava também eu necessitava de fazer uma pausa take a break relax enjoy something again a vida não pode ser a minha vida não é não põe ser uma corrida de bicicletas temos de aprender a andar a pé a viver devagar a esperar a ter paciência tenho de habituar-me a pensar que talvez o amor não exista que talvez não haja ninguém que nos possa amar eu sei bem sei estar só não tem sentido é por isso que nos distraímos é por isso que todos nós nos pomos a sonhar irresponsavelmente e é natural que seja assim é preciso ir aguentando a vida a realidade árida o deserto em que nos abandonaram sem nos ter pedido a nossa opinião.

Que mulher teria ainda paciência para ficar sentada ao meu lado em silêncio sem se queixar sem ter no rosto a marca a ruga de uma censura ou do tédio ou do rancor sem sentir que estava a perder o seu tempo que mulher poderia ainda debater comigo sem se aborrecer nem me aborrecer a eterna questão da nossa miserável solidão e partilhar comigo a alegria involuntária inconfessável de estar vivo e dizer-me que porque a morte há-de vir inevitavelmente um dia o facto de estarmos juntos poderia ser considerado em certo sentido uma bênção um milagre e dizer-me que para ela era uma consolação uma recompensa uma coisa boa estar ali sentada em silêncio ao meu lado que mulher poderia dizer pensar sentir coisas assim sem no entanto se vangloriar se considerar uma heroína. O comboio deslizava silenciosamente pelas planícies como num sonho e em breve chegaríamos a Lisboa onde me esperavam alguns amigos a minha nova família.

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