Friday, July 17, 2015

dizer alguma coisa

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as pessoas que amamos? imagens pintadas no espírito. esboçam-se primeiro as linhas dos contornos, os olhos, os lábios, o nariz. vão-se enchendo de intensidade as cores. mas nem por isso uma imagem deixa de ser uma imagem, reconstrução, invenção. não nos apercebemos, eu sei, mas é o que é. no início, às vezes, muitas vezes talvez, hesitamos. interrogamo-nos. acontece até que admitimos a possibilidade de apagar tudo, de esquecer, de não pensar mais no assunto. o amor é uma canseira, sei lá se tenho paciência para me meter noutra relação.

2

what does it mean to say something? que significa dizer alguma coisa? se alguém fala deve ser por ter alguma coisa a dizer, imagino. mas what does it mean ter alguma coisa a dizer? queixar-se de uma dor dizendo “ai” é diferente de dizer “hoje é dia 5 de março” e ambas as frases são diferentes de dizer “quero um quilo de carne de vaca” ou de “eu odeio-te”. mas não compliquemos as coisas. querer ir ao fundo desta questão tendo em conta todos os seus aspectos levaria muito tempo. e é duvidoso que se possam enumerar e definir todos os aspectos seja do que for. por isso decidi simplificar. dizer alguma coisa significa que há alguma coisa a dizer. andar na rua a apontar para as árvores e a dizer “aquilo é uma árvore” pode classificar-se nesta rubrica. mas só no caso de alguém nos perguntar “o que é aquilo?”, pois de outro modo seria uma atitude excêntrica. quando me levanto de manhã e me olho no espelho da casa de banho não digo a mim mesmo “tu és o pedro” nem “eu sou o pedro”. porque não vem a propósito, já sei que sou o pedro. e só depois de uma grave crise psicológica, de uma ofensa, de um desaire, de um dia mau teria algum sentido que para me incutir coragem eu quisesse reforçar a minha consciência da minha própria identidade dizendo “sou o pedro, és o pedro”. um professor que entrasse na sala de aulas todos os dias e começasse por dizer “eu sou o professor, vocês são os alunos, estamos na sala de aula”, surpreenderia. porque os alunos já sabem tudo isso e só no caso de surgir alguém estranho à situação se justificaria tal enunciação do que todos já sabem. as coisas que todos nós sabemos seria enfadonho dizê-las: “isto é um livro, aquilo é uma árvore, aquilo é uma rapariga”. frases deste tipo só se podem dizer em situações particulares, quando chamar a atenção para a existência do que existe é necessário por razões literárias ou de método.


3

que diferença é que existe entre eu dizer "vivi com uma tonta durante sete anos", o pedro dizer "ele viveu com uma tonta durante sete anos", e a manuela dizer "o pedro diz que ele viveu com uma tonta durante sete anos?" será verdade que a minha frase é mais convincente do que a do pedro e a da manuela? e que a frase do pedro é mais convincente do que a da manuela? e será assim porque do que me diz respeito eu sei mais do que outras pessoas e à medida que a frase se afasta de mim vai perdendo em cada citação progressivamente a sua força de verdade? é perfeitamente discutível que a mulher com quem eu vivi sete anos fosse uma tonta e no entanto as pessoas terão tendência a acreditar no que eu digo porque sou eu que o digo e estou a falar de um assunto que me diz respeito. pois. mas eu vi uma fotografia dela em roma, ela diz que não é ela porque ela nunca foi a roma - e eu não acredito. se eu disser que por essa única razão lhe dou um par de estalos se a voltar a ver, ela acreditará, alguém me acreditará, eu próprio acredito no que digo? não faço a mínima ideia. conclusão: a relação das frases na primeira pessoa com a verdade é tão certa ou tão duvidosa como a das frases na segunda ou na terceira pessoa.


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a arte como resgate: para reescrever ou fazer esquecer o seu passado de galdéria oportunista e tresloucada, a osga recorreu à arte. pôs-se a pintar. e por baixo dos quadros alguém escrevia por ela: "the madness of life"; "mulher confusa abandona a casa e caminhando pelas ruas sente o vazio". gente desprevenida lia aquela prosa e ficava melancólica. ela tentava de novo ter biografia. outra biografia. mais uma entre tantas outras que quisera ter no passado. whatever.

5

a culpa pode ser tua, não te vejo o suficiente. ou começo a desconfiar da fatalidade do desejo, a pensar em ti ao meu lado nas ruas de lisboa ou de coimbra, de paris ou de marselha, de barcelona ou de livorno, e não estou seguro de que tudo se passe como nós gostaríamos, tu e eu, que se passasse. não é medo exactamente, mas precaução. a culpa de as coisas acontecerem assim provavelmente é tua. difícil afirmá-lo com convicção, mas tu às vezes desapareces. estarás a hesitar, pensas em quê? não te vejo tanto como desejava. não falamos o bastante para que por cima da superfície, dos contornos, das linhas que se foram desenhando no espírito, por cima da imagem, tenha começado a imprimir-se a densidade do ser, a aparecer a pessoa escondida por detrás da máscara. quem? tu. isto é, alguém com quem eu possa estar seguro de contar. que não me abandone, que não me desiluda, que não me minta. que não se aproveite de mim, que não me engane, que em cada dia que passa me obrigue a agradecer a deus ou ao destino a sorte de a ter encontrado. exactamente. aquela que eu queria amar, aquela que me amasse para que eu acreditasse que o amor existe, para eu ficar convencido de que amar não é apenas uma invenção nossa, uma doce e amarga ilusão.

6

peço desculpa. i am so sorry. tens razão, não te dei o benefício da dúvida. fui injusto, egoísta, depois senti-me culpado. do amor não percebo nada. terei tempo para aprender? sinto-me inseguro. amar alguém nunca me pareceu tão arriscado. não sei se mereço o que me está a acontecer. achas que tenho lugar no teu futuro? pensas que vais amar-me? estás sentada numa mesa perto da cozinha, eu estou de pé na tua frente. sorris, dizes que sim. claro, o futuro nunca se sabe, não se pode saber. mas tu não percebes por que razão é que eu complico as coisas, não há motivo para tanto nervosismo. insegurança, digo eu. eu também sou insegura, dizes tu. se te beijo, tu beijas-me. e eu distraio-me do resto. mas depressa te afastas. como se eu te queimasse. tens de ir acabar o artigo que tens em mãos e que vais mandar para uma revista inglesa. compreendo, não protesto. toco-te no rosto, não resisto, tu ficas perturbada. tenho tanto poder? fico surpreendido. quando eu cheguei encostaste pela primeira vez a cabeça no meu peito à procura de ternura, eu abracei-te. mas não quero impor-te a minha presença. é melhor ir-me embora. deixo-te com o teu gato, vou para casa, ponho-me a ler um livro medieval: o amor ou cresce ou diminui, quem não tem ciúmes é porque não ama, um homem apaixonado vive apreensivo, o amor não pode recusar nada ao amor, quem ama nunca recebe o bastante.

7

certas questões que agora me preocupam nunca me interessaram antes. eu devia achar que não valia a pena cansar-se a querer saber o que não se pode saber. nos últimos meses mudei de ideias. há muitas coisas que antes de reflectir nos parecem simples e que depois de nos debruçarmos com atenção sobre elas se revelam complexas. pode beneficiar-se com a consciência da nossa ignorância. querer saber porque é que as pessoas falam (ou se calam) seria uma ambição desmedida se a nossa curiosidade se estendesse sem excepção a todas as coisas que são ditas (e caladas) por todas as pessoas. mas querer saber porque razão uma pessoa falou ou se calou em determinadas circunstâncias, por exemplo, é razoável. o que é que tu querias exactamente quando falaste ou quando te calaste? querias dizer o quê? porquê? para quê?

8

há quem fale só por falar? é possível, mas pode duvidar-se. há quem fale para convencer outra pessoa de qualquer coisa em que ela não acredita? é muito provável. há quem fale para ficar de consciência tranquila depois do crime? deve haver. tu, por exemplo, porque falaste tanto dessa vez ao telefone? vieste com pés de lã e sorriso nos dentes, conciliadora, subitamente disposta a abrir-me a tua alma. portas escancaradas, as pernas da sinceridade abertas em cima da cama do palavreado. que riso. que engano. que nojo. eu ouvi-te. como era possível continuares, à distância, a querer enredar-me ainda em ficções asquerosas? há quem fale por não ter consideração nenhuma pela pessoa com quem está a falar? claro que sim. mas foi a última vez. estou a ver-te, meses antes, no elevador, a abanar a mão enquanto a porta se ia fechando, figura branca a dissolver-se, escondida, envergonhada por detrás de todas as tuas vigarices nunca confessadas. com sentimento de culpa: nunca me fizeste mal, obrigado por tudo, só te posso querer bem, foste bom comigo. e escapaste-te. ufa. o teu corpo quase desaparecia, tentavas esconder-te por detás dele, diminuías a olhos vistos. encolheste-te no elevador o mais que pudeste. não tinhas saído a voar pela janela porque não tinhas asas. momentos antes, suavemente, quando te abracei e meti as mão pelas tuas calças a dentro: não faças isso, ainda fico mais confusa. ainda mais confusa? what does it mean to say something? who knows? do we know? do we?

9

portanto se alguém diz ou cala alguma coisa tem de haver uma razão. em princípio. talvez mesmo aqueles de quem dizemos que “falam por falar” (ou que calam por calar) estejam a dizer alguma coisa que era necessário ser dita e nós não os percebemos. o que eles dizem, em todo o caso, não nos interessa. temos razão? quem sabe? mesmo os loucos, aqueles que dizem coisas que definitivamente não têm nem podem ter qualquer sentido, provavelmente falam porque tinham alguma coisa a dizer. não os entendemos nem fazemos esforço por entendê-los, achamos que deles dizem loucuras. o que são loucuras porém? o nome que damos ao que não queremos ou não podemos entender e integrar no nosso language-game.


10


eu via os teus olhos que me olhavam, o teu rosto um pouco pálido, eu sabia alguma coisa da tua vida. sabia que tu me falavas como ninguém me falara antes. uma vez perguntaste-me se além de ti eu me encontrava com outra mulher e eu disse a verdade que não evidentemente e fiz-te a mesma pergunta a ti e tu disseste não evidentemente estávamos a jantar num restaurante só mais tarde entendi no entanto que tu estavas sempre muito mais presente onde estavas onde eu te via do que eu tu sabias olhar e eu não tu tinhas uma sabedoria das relações que me faltava a mim e mais tarde ao sentir-me superficial desatento distraído eu desgostava da pessoa que eu era e a partir daí tentava aperfeiçoar-me prometia a mim mesmo exigia de mim mesmo aprender a ouvir aprender a dizer aprender a distinguir a verdade da mentira para escapar enfim à insignificância à parvoíce à banalidade à vaidade que me impedia de reflectir de examinar de entender. tu falavas pouco eu falava de mais a excitação a alegria ver-te ouvir-te estar contigo fazia de mim um passarinho tonto incapaz até de se dar conta das armadilhas que podiam ameaçar a minha paz de espírito as nossas relações o meu futuro.

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