Sunday, February 8, 2015

O Anjo


O Anjo

Como a borboleta cega pela luz do pequeno sol em cima da mesa, o herói da história andava à volta de si mesmo. E à volta de si mesmo o caminho não leva tão longe que se possa perder de vista o vício, o hábito, a velhice dos ramos e das folhas, dos frutos da árvore ressequida. À volta de si mesmo o herói aproxima-se da morte não como um cão lúcido, molhado pela chuva e pelo suor da coragem; mas como um soldado perdido, quase louco e incapaz de desejar ainda alguma coisa neste mundo.

         Quando o herói, o exilado ridículo, na sua solidão, sentia assim aproximar-se a decadência do corpo e do espírito, destruir-se a própria ambição de um destino com alguma coerência, surgiu o anjo. Falou-lhe com doçura, depois com fervor, depois hesitou em continuar o esforço e abandonar-se ao amor. Mas as lágrimas redimiram os crimes e a própria angústia, o nada que de todos os lados ameaçava e invadia a alma. O herói perdeu a ironia e foi obrigado a repensar o sentido das palavras. Deixou de sorrir e molharam-se-lhe os olhos de uma água terna e suave, várias vezes, enquanto conversava com o anjo. Para o assustar, o anjo dizia-lhe: não sei se posso ficar, não sei se o amor é possível. O herói, abandonado de novo à triste lucidez de antigamente, dizia:

— E como podes ficar? Como seria o amor possível?

O anjo, porém, depois de ter ficado em silêncio alguns momentos, respondia:

— Não lutas por mim, não me queres na tua vida?

Confuso, o exilado não sabia que dizer, receava até ter ofendido a generosidade do anjo. Os lábios abriam-se-lhe timidamente e com alegria murmurava:

— Quero que tu fiques. Mas como posso esperar tanto?

E o anjo ficou. As palavras, de novo, pareciam recuperar o sentido — e com elas todas as acções humanas. O anjo iluminava ao mundo com o seu cabelo loiro, a pureza do seu olhar, a inocência sublime do seu sorriso e das suas palavras.

O encontro do exilado com o anjo foi surpreendente. Hoje ainda, sentado em casa à noite, sozinho, a pensar no seu destino, o herói da história, o exilado, continua sem entender o milagre do amor. Debruçado sobre uma borboleta, como uma criança divina, o anjo observa, extasiado, o mistério. E o exilado contempla a imagem e, despreocupado, sorri.